Há pouco tempo, o jornal econômico alemão "Handelsblatt" (edição eletrônica) ironizou de forma mordaz a situação política do Japão, tornando-se um tema de destaque.
O jornal afirmou que os títulos da dívida pública japonesa estão sendo vendidos e que o mercado de títulos caiu em estado de frenesi, comparando Takaichi, a primeira mulher a se tornar primeira-ministra do Japão, à ex-primeira-ministra britânica Truss. Questionando a política de redução de impostos apresentada por Takaichi às vésperas das eleições para a Câmara dos Representantes, o jornal destacou que a tendência do mercado de títulos “significa que se está consciente de um ‘choque Truss à japonesa’”.
Truss assumiu o cargo de primeira-ministra do Reino Unido em setembro de 2022. Para superar a grave inflação monetária e a crise energética herdadas do governo anterior, bem como a recessão delas decorrente, ela implementou uma política de redução massiva de impostos no valor aproximado de 45 bilhões de libras. Chegou até a proclamar de forma grandiloquente que reconstruiria a economia e “ergueria uma Grã-Bretanha moderna e resplandecente”.
No entanto, sua política provocou uma crise tripla, com a queda simultânea do valor dos títulos públicos, da moeda e das ações. O mercado entrou em completo caos e a crise econômica se agravou ainda mais. A turbulência de então passou a ser chamada de “choque Truss”.
No fim, ela deixou o cargo de primeira-ministra após apenas 44 dias, registrando a desonra do mandato mais curto da história britânica.
Onde estava a causa?
Alguns analistas econômicos opinaram que a insegurança se ampliou porque a redução massiva de impostos não foi sustentada por fontes fiscais. Contudo, a principal causa residia em políticas antipopulares.
Antes de Truss assumir como primeira-ministra, o Reino Unido já enfrentava inflação monetária e crise energética. Isso foi um resultado direto da insistência das autoridades em sanções contra a Rússia após o início da crise ucraniana. O jornal britânico "The Guardian" advertiu que as sanções ocidentais contra a Rússia eram a principal causa da crise energética e da inflação, assinalando uma série de consequências como a tensão no fornecimento de energia e a alta dos preços.
Mesmo assim, o governo Truss buscou a solução reduzindo o imposto corporativo das grandes empresas e o imposto de renda. Na época, o jornal estadunidense "The New York Times" noticiou que Truss encarava a política de cortes de impostos como uma panaceia capaz de resolver os difíceis problemas econômicos, o que beneficiaria os ricos e os grandes empresários, mas cujo custo seria pago pelos cidadãos comuns do Reino Unido. De fato, a política de redução de impostos de Truss acabou se traduzindo em um pesado ônus para a população.
O governo Takaichi, no Japão, desde o início de seu mandato, passou a se apegar a políticas fiscais imprudentes à la Truss, alardeando algo como uma “política fiscal responsável e ativa”.
Atualmente, a situação fiscal do Japão encontra-se no pior nível entre os países ocidentais, com a dívida pública superando 2,5 vezes o produto interno bruto, ocupando isoladamente o primeiro lugar nesse índice.
Apesar disso, as autoridades de Takaichi continuam emitindo títulos da dívida pública e ampliando os gastos fiscais. Alegam estabilidade de preços, combate à recessão e melhoria da vida do povo, mas na realidade destinam a maior parte desses recursos a inflar os cofres de empresas da indústria bélica e conglomerados monopolistas, por meio do aumento dos gastos militares e de cortes de impostos para grandes empresas.
No maior orçamento suplementar já elaborado, o primeiro desde a formação do governo, referente ao ano fiscal de 2025, mais de 60% das fontes fiscais foram obtidas por meio da emissão de títulos públicos. O projeto de orçamento para o ano fiscal de 2026 foi fixado em mais de 122 trilhões e 300 bilhões de ienes, o maior da história, sendo que cerca de 30 trilhões de ienes também serão cobertos pela emissão de títulos da dívida.
Agora, com a intenção de assegurar impulso para a implementação de políticas direitistas, o governo Takaichi promoveu a manobra de dissolução da Câmara dos Representantes e ainda lhe acrescentou uma suposta política de redução de impostos. Pode ser uma tentativa de conquistar o favor do eleitorado, mas, no final das contas, o ônus e o preço decorrentes da redução de impostos acabarão recaindo sobre o povo, como ocorreu no Reino Unido. Especialistas avaliam que as consequências futuras dessa situação fiscal podem não se limitar à queda da credibilidade dos títulos públicos ou à instabilidade do mercado, mas até mesmo conduzir à falência do Estado.
A comparação feita pela mídia alemã é extremamente sugestiva.
O caos político e econômico do Reino Unido não terminou com a renúncia de Truss. O governo Sunak, que assumiu posteriormente, também não escapou a um destino efêmero, e em julho de 2024 o Partido Conservador acabou pondo fim a 14 anos de domínio prolongado.
O que é evidente é que políticas antipopulares inevitavelmente provocam caos político e econômico.

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