sexta-feira, 22 de maio de 2026

Poema Épico "Monte Paektu"


Prólogo

Trinta milhões de compatriotas!

Hoje também eu erguerei minha voz!

Mesmo diante do silencioso sorriso do “tigre branco”,

das águas azuis do Lago Chon

que se erguem impetuosas e engolem as nuvens,

hei de lavar este peito ressequido e queimado

pelos ventos mortais que açoitaram esta terra.

Tomando por tinteiro as rochas

cobertas pelo musgo de mil anos,

afiando a ponta deste pincel

como se fosse a lâmina de uma baioneta,

também eu, poeta sem nome desta terra,

neste dia de libertação, falarei!


Escarpas sobre escarpas perfuram o firmamento,

penhascos tão altos que o olhar se perde.

Aqui está o Lago Chon,

onde dizem descer as fadas sobre arco-íris,

este cume tão elevado

que até a névoa hesita em subir!

Contra a correnteza dos tempos

façamos remontar o barco das lembranças —

em que ano, em que hora,

os guerrilheiros desta pátria escalaram este lugar,

sustentando o próprio céu sobre os ombros,

ateando fogo à indignação,

e acendendo a última grande fogueira

da libertação?


Agora os justos combatentes antijaponeses,

que marcharam para a linha da morte,

trouxeram à Coreia a luz do renascimento.

A grande estrada gloriosa da libertação

atravessou as ondas do rio Tuman,

rasgou as dobras do Paektu

e estendeu-se até a Coreia democrática.

Em cada vale de Changbai

ainda permanecem gravadas

as marcas das batalhas de outrora.

E eu hoje, livremente,

subo a este cume

e contemplo as três mil ri da pátria

como as linhas da palma da mão.


Ó terra dos antepassados!

Quando a linhagem de cinco mil anos

foi golpeada pela espada do imperialismo japonês,

quantos fragmentos arrancados

rolaram em sangue e ressentimento?

Quando o destino da Coreia

foi colocado sobre a prancha funerária,

quantos patriotas

buscaram às cegas as florestas do Paektu?

Quem foram aqueles

que chegaram a invejar até um breve sono

sobre folhas secas,

e atravessaram a porta da morte

como se cruzassem o limiar de casa?

Ó montanha ancestral, responde!

Nesta terra libertada,

quem combate pelo povo?

Quem se colocou

na primeira fila da batalha popular?


Ssshhh — uiii—

sobre a rocha surgiu um tigre,

o tigre do Monte Paektu!

Estendendo ferozmente a pata dianteira,

fitando os céus do sul,

solta um rugido —

“Dda-ung!”

o vale inteiro estremece.

Ergue as garras

como se fosse despedaçar algum inimigo —

“Dda-ung!”

E então desaparece

no meio do assobio do vento.

Mesmo quando apenas a brisa

roça o musgo das rochas,

parece que o tigre ainda permanece ali.

Recompondo meu espírito, escuto —

talvez o assobio ressoe outra vez,

talvez novamente ecoe

aquele rugido furioso

capaz de fazer tremer céus e montanhas!


Rocha! Rocha!

Como poderia eu saber?

Talvez seja realmente esta a rocha

onde o sentinela guerrilheiro vigiou o inimigo,

onde os mártires patrióticos

ergueram alto a espada do juramento.

Aquela rocha desconhecida

erguida sobre Changbai,

onde os combatentes guerrilheiros

hastearam o estandarte da libertação —

ela também criou raízes

e se elevou dentro do meu peito.

Seguindo os vestígios das antigas batalhas,

recolho e entrelaço

minhas pobres inspirações poéticas,

ousando retratar os heróis do Paektu.

Ó trinta milhões de compatriotas,

com minha voz — alta ou baixa —

abrirei o peito

e falarei livremente do fundo do coração!

Capítulo 1

1

Serra após serra —
quantas ainda haverá?
Cruza-se uma,
cruza-se outra,
e novas montanhas surgem à espera!

Mal se vence um vale,
logo outro aparece —
emaranhado de azáleas e bétulas,
cerrando o caminho adiante.
Como um lenhador curvado
sob o peso do sofrimento,
o vale se estende sombrio e silencioso.

Centenas de ri cobertos pelo eco das montanhas,
milhares de ri perdidos na neve branca —
até as feras selvagens
hesitam em seguir adiante,
e os pássaros, consumidos pela solidão,
batem asas e vão embora.

No coração profundo do vale Hongsan,
nas montanhas de Changbai,
sobre a neve acumulada
pelos ventos cortantes entre os penhascos,
estão gravadas nitidamente estas pegadas.

Pegadas infinitamente solitárias,
seguindo para o norte,
sempre para o norte —
de quem seriam?

Seriam os rastros de um caçador
perdido na tempestade de neve,
abandonado ao próprio destino?

Quem foi que seguiu rumo ao norte?
Lá no norte,
o Monte Paektu agita seus cabelos brancos,
lançando ventanias geladas,
suspirando entre lâminas de geada!

2

Observai atentamente
essas pegadas nítidas sobre a neve —
nelas não há sinal de desespero.

Na noite passada,
homens de túnicas brancas,
calçando sandálias de palha,
atravessaram este lugar rumo ao norte.
E embora fossem centenas,
deixaram apenas um único rastro.

Mas hoje,
tentando desfazer essas pegadas,
dezenas de japoneses
afundam até a cintura na neve,
ateando grandes incêndios de “expedição punitiva”
às florestas cerradas.

À frente correm dois cães militares,
atrás brilham os óculos de um oficial,
e atrás deles —
fileiras de canos de fuzil cobertos de geada.

“Mas afinal, há somente pegadas de uma pessoa…
para onde todos desapareceram?”

O homem dos óculos
perscruta inquieto os penhascos.

“Talvez sejam mesmo…
fantasmas que surgem e desaparecem…”

Antes que a frase termine —

Bang!

O tiro rasga o ar congelado.

O homem dos óculos,
sem sequer conseguir tirar as pernas da neve,
tomba para trás
como se estivesse prestando continência.

3

Então…

Então Hongsan explodiu.

Disparos!
Explosões!
Rajadas de metralhadora!
Gritos desesperados dos inimigos!

Então os penhascos ruíram —
desabando,
saltando,
estilhaçando-se,
enquanto enormes rochas
esmagavam o vale.

“Manse!” (Viva!)
“Manse!” (Viva!)

O brado sacode toda a garganta da montanha.

Das encostas surgem,
como se voassem,
os homens de túnica branca escondidos na neve.

Aqui também ecoa o grito do assalto:
“Aak!”
Ali também:
“Aak! Aak!”

Lanças cintilantes encontram o clarão da neve,
rasgando o céu gelado
como relâmpagos.

“Camaradas!
Não deixem escapar um só deles!”

Era a primeira ordem
do combate corpo a corpo em chamas.

4

Sobre uma rocha da encosta,
um jovem ergue-se de um salto.

Seu porte alto e esguio,
as abas da túnica branca
ondulando violentamente
como asas prestes a lançar voo aos céus.

Seu corpo inteiro —
braços e pernas —
arde no impulso do avanço.

Com um olhar afiado
como lâmina coberta de geada,
ele corta o campo de batalha de um só golpe visual.

“Não deixem nenhum deles vivo!”

Assim ele brada.

Quando faz reluzir
a lança em sua mão direita
na direção do abismo,
os dois últimos inimigos,
ainda debatendo-se em desespero,
escorregam e tombam.

“Não deixem nenhum deles vivo!”

Ele torna a gritar.

Este é o comandante Kim,
o guerrilheiro coreano
cujo nome sozinho
faz estremecer o imperialismo japonês nas três províncias!

É ele quem domina Changbai,
quem segura o monte Tai na palma da mão,
fulgurando entre leste e oeste!
Cruza num instante
os desfiladeiros de mil ri —
dizem até
que domina a arte de reduzir distâncias!

Uma nova estrela ergue-se no céu do norte,
espalhando sua luz feroz
pelos cursos do rio Amnok.

“Nasceu um general enviado pelos céus!”
assim clamam,
das aldeias montanhosas do Paektu,
sobre o comandante Kim,
o guerrilheiro da Coreia!

5

Quando as chamas do combate cessaram,
os guerrilheiros,
senhores da floresta,
começaram a recolher
as armas do inimigo.

Quantos japoneses
caíram sob a espada da vingança?

Quantos,
diante das táticas guerrilheiras,
abandonaram em fuga desenfreada
o “Imperador Celestial”
e o tal “Bushidô”?

“Não deixamos escapar um sequer!”

relata Chol Ho.

“Desta vez também,
vieram apenas
para nos entregar armas!”

responde em voz alta o comandante Kim.

E então explode sua gargalhada franca —

“Ha… ha… ha!”

A risada,
como flores brancas desabrochando,
parece cair em cachos
e cravar-se sobre a neve.

6

Naquela noite,
a neve caiu.

Céu, terra,
penhascos,
o próprio campo de batalha de Hongsan —
tudo foi enterrado pela neve.

Somente os matagais
pareciam campos de cânhamo floridos em julho,
e até as árvores secas de grande tamanho
floresciam fora de estação.

Naquela noite,
o destacamento guerrilheiro
entrou nas tendas pela primeira vez em quatro dias.

Como era acolhedor
o cheiro úmido da caverna!
Como dava vontade
de abraçar as chamas da fogueira contra o peito!

Na tenda onde estava o comandante,
a lamparina tremeluziu até o amanhecer…

E pela manhã,
enquanto a nevasca soprava violentamente,
o agente político Chol Ho
partiu para uma longa jornada.

As palavras de despedida do comandante:

“Chol Ho, tome cuidado! Confio em você!”

O aperto firme de sua mão
fez ondular uma maré ardente no coração.

Mesmo escondido atrás da nevasca,
o sol continuava existindo.
Mesmo que o frio congelasse a terra
como madeira endurecida —

7

Nevasca… nevasca…

O inverno lança seu último rugido.

Como se procurasse alguma coisa,
vaga de um vale a outro,
sacudindo violentamente os pinheiros,
uivando em lamento interminável…

Agarra-se aos troncos das bétulas,
contorce-se como se não pudesse suportar mais,
e investe contra os penhascos
como uma fera enfurecida.

Atira-se contra as rochas,
esmaga,
rola,
morde,
e depois sobe às cristas das montanhas,
gritando como enlouquecida,
varrendo céu e terra
em corrida desenfreada para o sudeste.

Nevasca… nevasca…

Tu também atravessarás montanhas e vales,
até alcançar o rio Amnok!

Tendo-te como companheira,
Chol Ho cruzará estas montanhas!
Atravessará o Amnok
e pisará a terra dos antepassados!

Nevasca! Nevasca!
Escutas?

Ajuda Chol Ho —
não és também
a nevasca de Changbai?

Chol Ho viajará para muito longe.
A cidade H da fronteira
está em seu caminho,
e também Songjin e Hamhung.

Ó nevasca de Changbai!
Sopra mais forte,
oculta Chol Ho —
faz o imperialismo japonês estremecer!

Sopra mais forte,
leva Chol Ho adiante —
faz com que atravesse o rio Amnok!

Capítulo 2

1

A neblina cai-
Na aldeia montanhosa cai a neblina do entardecer
Trazendo consigo a escuridão
Passo a passo, sem sequer um guia
Tateando a trilha estreita do vale de roças
A neblina do entardecer desce sobre as montanhas.
A neblina cai-
Contorcendo-se como um rebanho de ovelhas brancas
Acariciando as rochas escarpadas do pico Sabal
E silenciosamente, sem que ninguém perceba
Entrando sorrateira no bosque de pinheiros
Ainda assim descendo até a aldeia
Como se quisesse ao menos descansar tranquilamente durante a noite
A neblina cai-
Sobre o Monte Paektu cai a neblina!

2

“Ah! Já está anoitecendo-”
A voz de Kkotbun quebrando raízes de kudzu,
Essas raízes que precisavam ser arrancadas mesmo ao cair da noite
Pois a água posta no caldeirão do jantar logo começaria a ferver,
E já fazia dias que teias de aranha cobriam o pote de arroz
De que adiantava contar os dias nos dedos!
“Ah! Já está anoitecendo!”
Mesmo assim era o destino de Kkotbun continuar arrancando raízes
Tanto no jantar quanto no café da manhã vivia de mingau de kudzu,
Enquanto a escuridão tentava cobrir a terra.
Até o amanhecer pousava sobre as folhas de pinheiro
A aldeia afundava na neblina
Mesmo assim Kkotbun precisava encher o cesto-

3

Ah, raízes de kudzu! Raízes de kudzu!
Nas encostas deste país
Toda primavera, sem faltar uma vez sequer
As flores floresciam e as borboletas iam e vinham
Mas por que mulheres carregando cestos
Vagavam arrastando as pernas inchadas até quase explodirem?
O povo passou a vida inteira enredado em cipós de kudzu
Seria culpa tua haver tantas raízes neste país?
Mesmo que as pessoas caíssem exaustas após comer aquilo
Nos enormes armazéns, nas vastas estações e portos
Montanhas de arroz estavam empilhadas
Voltadas para o estreito da Coreia
Quem eram os que o levavam? E quem eram os que o comiam?
Ah, raízes de kudzu! Raízes de kudzu!
Houve tempos em que o povo nem da tua existência conseguia sobreviver
Seria tua culpa seres tão escassa neste país?

4

Os corvos passam voando-
Crau- crau-
Olhando para Kkotbun lá de cima-
Crau- crau-
“Ah! Preciso ir!” Kkotbun se levanta.
Com uma mão segura a barra da saia molhada de orvalho
Na outra, o cesto mergulhado na escuridão
Ela desce a trilha rompendo a neblina,
O bosque de pinheiros já está sombrio
E o coração tomado de medo.
Nesse instante, como uma sombra indistinta-
Um homem surge do bosque de pinheiros
“Ah? Quem é você?”
Num instante ele bloqueia o caminho, todo escuro
Bloqueia o caminho, escuro como um duende
É um fantasma? Ou um homem?

5

“Moça, por acaso conhece Kim Yun Chil?”

Como se uma pedra lhe caísse no peito
Ainda assim o olhar da jovem foi rápido
O rosto queimado de sol daquele homem
E aquele olhar penetrando o coração da moça-

“Kim Yun Chil? É o meu pai…”

A expressão da jovem tomada pela dúvida

“Ah, então você é Kkotbun?”

Os dois olhos brilhantes da moça

“Ah, isto também posso chamar de sorte do destino…”

O homem exclama
E voltando-se de repente para o bosque de pinheiros
Ecoa inesperadamente o canto do cuco-

Cuco- cuco-

Até o silencioso bosque de pinheiros responde alegremente-

Cuco- cuco-

E então surgem mais dois homens do meio do bosque.

6

Quatro pessoas sentadas escondidas atrás dos pinheiros-
Um deles era Chol Ho-

Partira para longe em meio à nevasca
Mas quando e para onde havia ido
E que trabalho fazia?

Agora, como um gramado ensolarado
Aconchegado em sonhos verdejantes
Neste tempo em que a primavera brota nos galhos de azaleia
Por que vinha carregando um fardo
Até o vale de Solgae?

Quantas montanhas teria atravessado
E quantas noites caminhado?

Deixemos isso, de que adiantaria perguntar?
Mesmo sem perguntar, não seria possível saber?

Outro homem era Jung Ro-
Um operário de Hamhung
Que naquela noite levaria ervas medicinais até Hongsan-

Dizem que há uma aldeia desconhecida em Hongsan
E nessa aldeia existe até um hospital
Onde pacientes e médicos
Chamam-se mutuamente de “camarada”.

Outro ainda era o mensageiro de Cho Ho-
Um rapaz de dezesseis anos chamado Yong Nam
Que naquela noite precisava partir para a cidade H
Sempre sorridente e bom cantor
Que vivia dizendo que atravessaria “a colina de Arirang”.

7

“Eu me chamo Pak Chol Ho,
Quanto sofrimento a senhora tem passado?”

As primeiras palavras do homem que bloqueava o caminho,
Mesmo que o bosque de pinheiros escurecesse
Na face de Kkotbun brilhava um rubor avermelhado-

“Ah! Camarada Chol Ho!”

Ela apenas sussurra suavemente.

Sem sequer conhecer seu rosto
A jovem recebera sua orientação durante um ano-
Imprimindo e distribuindo panfletos
E enviando roupas para Hongsan.

Ela imaginara que fosse um homem de meia-idade-
Mas ele era um jovem vigoroso,
De aparência firme e bondosa
Olhos ardendo em paixão generosa-
(Teria uns vinte e poucos anos?)
Pensa a jovem de cabeça baixa.

Depois de fazer um último pedido aos camaradas que partiriam
Dizendo que permaneceria no vale de Solgae

“Camarada Kkotbun,
A mimeógrafa está longe?”

Pergunta Chol Ho.

“Não, não se preocupe!”

Responde Kkotbun.

A mimeógrafa escondida junto ao muro de pedras da fonte
Ela a traria quando escurecesse-
Assim pensava Kkotbun.

“Então, camaradas!”

Diz Chol Ho levantando-se.

A aldeia parecia adormecida
Coberta por um algodão leitoso
E apenas o grande portão do posto policial
Erguia-se sombrio
Como se lançasse olhares ameaçadores sobre a aldeia.

Enquanto a escuridão pressionava a aldeia montanhosa
No bosque de pinheiros do vale das roças havia a silenciosa despedida de quatro pessoas.

“Então…”

Aquele cumprimento desajeitado pelos sentimentos confusos
E depois o som dos primeiros passos da despedida ecoando contra as paredes do coração!

O aperto de mãos dos companheiros-
Aquilo era um juramento de luta.

Era a confiança na vitória.

Era a convicção da vitória.

Nossos camaradas
Apertavam as mãos daquela maneira
E corriam para o meio da chuva de balas
Entrando sem hesitar no próprio perigo mortal.

Apertavam as mãos daquela maneira
E eram arrastados para as prisões
Ou subiam tranquilamente ao cadafalso.

Ah, aquele cumprimento do camarada leal!
Tão puro quanto o riso de uma criança
Tão constante quanto o amor de uma mãe
Tão vermelho quanto o sangue da justiça
Tão ardente quanto o sol do equador!…
“Ah, aquele cumprimento do camarada leal!…”

Capítulo 3

1

Num passado distante
Onde existia o abrigo dos caçadores do Monte Paektu
Escondido no bosque de pinheiros e pinhões-
Chamavam-no vale de Solgae porque havia muitos milhafres,
Mas até esses milhafres outrora tão numerosos
Desapareceram sem deixar sequer suas sombras
E no alto do pico Sabal apenas um corvo solitário pousa
Chorando como se lamentasse as montanhas isoladas!

Antigamente os caçadores de tigres
Ao cair da noite reuniam-se junto à fogueira
Sonhando honestamente com a esperança do amanhã
Polindo seus mosquetes e afiando as lanças!

Mas até os velhos mosquetes enferrujados dos ancestrais
Foram entregues ao posto policial, acariciando-lhes os ouvidos com submissão
E os descendentes dos caçadores
Tornaram-se agricultores miseráveis de roças queimadas.

2

O vale de Solgae, esquecido do mundo-
É ali que vive Kim Yun Chol.

Na primavera do ano em que voltou a enfrentar o sangrento “1º de Março”
Sua esposa morreu sob as pancadas dos japoneses
E os guerrilheiros atravessaram o rio Tuman.

Escondendo o rifle da justiça dentro de um barril de carvalho-
Vivendo de trabalhos temporários aqui e ali-
Passou assim quantos anos?

Até que veio tornar-se agricultor de roças queimadas neste vale de Solgae.

Trouxe consigo sua pequena filha que estava em Hyesan
E enterrou tanto a ira quanto a esperança na terra destas montanhas isoladas
Vivendo apenas um dia após o outro.

Mas desde algum momento do ano passado
Encontrou nova esperança e nova força.

Foi quando
Uma lenda começou a circular por Solgae-

“Dentro do Monte Paektu há uma imensa gruta,
Tão vasta que nela existem sol, lua e estrelas brilhando.
E dentro dela dezenas de milhares de guerreiros afiam longas espadas,
Afiando-as contra as pedras
Enquanto aguardam apenas a ordem.

Quando chegar o momento, a ordem será dada,
E quando a ordem for dada
Os portões de pedra se abrirão de repente.
Quando os portões se abrirem
Os guerreiros sairão avançando como relâmpagos,
E quando eles avançarem
A guerra de libertação explodirá nesta terra
E o Império Japonês será esmagado-”

Desde então também Kkotbun
Passou a receber orientação de Chol Ho,
E desde então, sempre que olhava para o Monte Paektu
Em seu coração ressequido e sufocado
Ondas violentas agitavam-se como o grande rio de maio.

3

Monte Paektu! Monte Paektu!
Tu és testemunha dos séculos!

Os cascos levantando poeira de Gêngis Khan
E a espada ensanguentada de Toyotomi Hideyoshi
Deixaram feridas inesquecíveis em teu peito.

Mesmo quando os quinhentos anos da dinastia
Transformaram-se em fardo de humilhação sobre os ombros dos emissários
E precisavam atravessar o rio Amnok todos os anos
Deixando pegadas de desprezo sobre tuas costas
Ainda assim o povo ergueu a tocha da liberdade
E seguiu as lanças de Hong Kyong Rae
Travando as batalhas do ano Kabo.

Mas quando esta terra lapidada durante cinco milênios
Foi esmagada sob as garras venenosas do imperialismo japonês
Ó Paektu, até tu sufocaste de dor
E inclinaste silenciosamente a cabeça!

Mesmo assim o povo levantou os sinais de fogo
Empunhou espadas e ergueu os guerrilheiros da justiça
E ergueu o “1º de Março” com sangue.

Quando a fúria cobria as chaminés das greves
E a fome chorava agarrada ao “arrendamento”
Até as ondas do rio Songhua
Tornaram-se violentas sob a sombra japonesa,
E até a Grande Muralha
Rolia como pedra diante do desprezo dos invasores.

Então os guerrilheiros desta terra se levantaram
Tingindo com sangue a bandeira da resistência.

Ah, Paektu, quanto tremeste de indignação
Como as ondas furiosas do Mar do Leste
Fitando com olhos ensanguentados
Aquele inimigo na ilha além-mar-
Aquele inimigo com quem não se pode viver sob o mesmo céu!

4

Flor como uma flor,
Branca como pó-

A infância de Kkotbun
Passou-se numa aldeia de Hyesan.
Já fazia mais de dez anos que viera para o vale de Solgae-

Kkotbun jamais chegou sequer a conhecer uma escola,
Mas as longas noites de inverno tornaram-se noites de aprender coreano-
Guiada pelos ensinamentos do pai
Mesmo com as mãos ásperas e marcadas pelo trabalho
Conseguia ler facilmente até exemplares antigos de “Nova Mulher”.

Nas águas profundas de Imdangsu
Os barqueiros que abandonaram Shim Chong
Pareciam-lhe cruéis sem medida, e ela chorava.
E mesmo arrancando ervas silvestres
Dizia que arrancaria a cabeça do corrupto magistrado Pyon Hak Do
Atirando com raiva os torrões de terra ao chão.

Às vezes vinham também as tristes histórias do pai-
E aquilo, dentro do coração da menina
Era uma chama imortal
Que florescia ainda mais com o passar dos anos!

5

Sua mãe, que morrera na “campanha de repressão” do ano Kimi-
Sem sequer conseguir comer a tão esperada cevada cozida…

Às vezes as lembranças da mãe lhe invadiam o peito
Como se apertassem e torcessem todo o seu coração-

“Como poderei me vingar dos inimigos!”

O corpo inteiro de Kkotbun estremecia.

Para evitar até mesmo falar dormindo
Aquele jovem sem nome
Que arrancou a própria língua e tornou-se mudo
Ocultando os segredos da organização até a morte
E morreu silenciosamente preso ao cavalete de tortura-

“Ah, se ao menos eu tivesse um irmão assim!”

Kkotbun suspirava.

E aquela mulher da aldeia
Que escondera o marido guerrilheiro no teto da casa
E mesmo sendo perfurada pelas lanças dos japoneses
Não soltou um único gemido
Temendo que o marido saltasse ao ouvir sua dor-

“Ah, eu também farei assim!”

Em segredo, Kkotbun fez esse juramento!

6

Noite na aldeia montanhosa-
Em cada canto das casas da aldeia
A vida miserável das montanhas, como cabaças rachadas
Estendia seus confusos leitos de sonho sob trapos remendados
Mesmo nesta noite de abril.

Até o som da roda d’água cessou-
O último som da roda d’água…

Como se lamentasse a aldeia faminta
Aquele som que passava a noite inteira agarrado ao riacho solitário
Soluçando em prantos…

Mesmo assim, numa isolada cabana das montanhas
Esta noite era noite de vida, noite de luta-

Chol Ho e Kkotbun
Imprimiam os últimos panfletos.

Faltavam apenas mais cem exemplares,
E então, na manhã seguinte, Chol Ho partiria.

Nesse instante-

Do lado de fora ouviu-se um leve som de passos-
Como se agulhas lhe espetassem o corpo inteiro,

Da janela escurecida pela cobertura
Veio a voz abafada do pai, imóvel em guarda-

“Kkotbun! Apague a luz!”

O quarto mergulhou na escuridão,
E num instante Chol Ho já abraçava a mimeógrafa e os panfletos-

“Kkotbun! Abra a porta dos fundos!”

Mas já se ouviam passos pesados-
Passos esmagando-lhes o peito.

O coração parecia estremecer e desmaiar-
Kkotbun permanecia imóvel.

“Se sair, será preso!”-
O pensamento lhe cruzou a mente,

“O que fazer?”
Aquele instante parecia durar mil anos!

7

No momento seguinte…

A voz de Kkotbun, cheia de convicção e tensão-

“Chol Ho, cubra-se com o cobertor e deite-se!
Pai, o senhor também!”

Num instante a cama estava arrumada,
E Chol Ho, a mimeógrafa e os panfletos
Escondidos sob os cobertores.

Do lado de fora veio a voz insolente do policial-

“Ei, velho! Está dormindo?”

“……”

“Que sono é esse?”

“Quem é?”

A voz de Kkotbun soava sonolenta.
Ao mesmo tempo ela tirava o casaco.

Erguendo um pouco a cobertura da janela-

“Espere um instante… vou acender a luz…”

“Ah! Derrubei a lamparina!”

(A lamparina permanecia exatamente onde estava.)

“Ah, esse cheiro de querosene!”

(Era cheiro de tinta de impressão.)

Na janela iluminada apareceu a sombra-
O busto da jovem refletido nitidamente

Aquilo desviou completamente os olhos do policial.

Kkotbun fala com naturalidade maliciosa-

“Espere um instante… vou vestir minha roupa…”

Os panfletos espalhados pelo quarto
Foram parar sob o cobertor de Chol Ho.

“Senhor policial, pode entrar.”

Kkotbun abre a porta.

8

“Droga! Esse cheiro… quem é esse?”

“É meu recém-casado…”

“Recém-casado? Você se casou?
Sua mulherzinha, deitada agarrada logo no começo da noite…”

“O senhor também… dizendo ‘começo da noite’…”

Kkotbun responde sorrindo.

“Chega de conversa fiada! Diga ao velho
Para ir ao posto policial amanhã cedo!”

Lançando um olhar desagradável pelo quarto
O policial se vira bruscamente e vai embora.

Quando até o som de seus passos desaparece
Kkotbun cobre o rosto ardente com as duas mãos
E se deixa cair sentada.

Diante de Chol Ho, que se levantara sem palavras, tomado de emoção
Ela diz:

“Ah… por favor, me perdoe!”

Baixando a cabeça, sai para a cozinha.

Sozinho no quarto, Chol Ho
Com os lábios tremendo de emoção

“Camarada Kkotbun!”

Clama em silêncio dentro do coração,
Juntando as mãos e ajoelhando-se em pensamento-

“Verdadeira camarada!
Querida filha desta terra!”

Mesmo com a noite avançando
Entre eles separados pela janela
A noite se aprofundava cada vez mais…

E naquela meia-noite
Chol Ho partiu…

Capítulo 4

1

A fogueira dos guerrilheiros queima a noite-

A noite da floresta escura
Que pesa sobre Changbai como ferro!

A escuridão cruel apertando-se sem fim
Como se também cobrisse a mente com um véu negro-

Mas as chamas se erguem
As fagulhas saltam
Ardem até morrer
E morrem apenas para tornar a se erguer
Como se uma batalha desesperada e sem nome
Estivesse sendo travada naquela floresta.

A fogueira dos guerrilheiros-

Se ao menos uma vez alguém
Tivesse aquecido as mãos naquele fogo
Como poderia esfriar
A alegria que canta a vida
No sangue correndo acelerado?

Se ao menos uma vez alguém
Tivesse ouvido o crepitar dessas chamas
Como cada som
Não faria vibrar as cordas do coração
Despertando eternamente esperança e convicção?

A fogueira dos guerrilheiros-
Ela era lar e alimento.
Era um doce lugar de repouso
E também a luta do amanhã-

Ainda mais depois de romper os cercos da “campanha de repressão”
E atravessar o perigo mortal corpo a corpo,
Ela se tornava símbolo de vitória,
Farol salvador cintilando
No mar revolto da meia-noite!

2

Quando até os sentinelas
Começavam a sentir os olhos pesados de tanto bocejar
A unidade guerrilheira mergulhou em sono profundo.

Nesse leito cansado coberto de orvalho
Depois de quantos dias puderam esticar as pernas?

Embora as feridas de ontem ainda doessem
Embora já fossem quatro dias de fome
E embora o caminho à frente ainda fosse longo
Nesta noite havia a fogueira dos guerrilheiros
Sono profundo, sono de descanso.

Mas apenas um homem não conseguia dormir.

Sentado de lado junto à fogueira
Sem perceber a noite passar-

Nessas noites ele lia livros.

Mesmo quando a esperança começava a despontar ao longe
Como a névoa de uma primavera
Ele lia livros.

Mesmo quando nuvens de ansiedade pairavam baixas sobre o peito
E o desespero ameaçava surgir de algum canto
Ele lia livros-

E então encontrava nova força e propósito.

Mesmo quando o cheiro de cintos fervendo no caldeirão
Sacudia as entranhas famintas
Ele lia este livro.

E também quando lhe vinham à memória
A velha casa da infância tão querida
Na terra natal sempre saudosa-
Aquela casa prestes a desabar
Ao pé da colina coberta de pinheiros espessos
Surgindo nitidamente através do tempo e do esquecimento.

Ou ainda quando, certa primavera
A figura da mãe aflita
Suspirando na cozinha enquanto mexia o mingau
Entrava pela pequena porta da lembrança
Ele lia livros-

E então encontrava nova força e propósito.

Também nesta noite, seguindo linha após linha
Seus pensamentos caminhavam livremente-

“Ainda que sejamos poucos
Ainda que passemos fome e derramemos sangue
Se o povo nos sustentar,

Se repelirmos para sempre
A muralha da exploração e da invasão,

Então uma esplêndida fortaleza de criação
Brilhará sob a luz do dia
Espalhando-se do Paektu para iluminar o mundo.

Nossa convicção se tornará uma imensa chama
Iluminando a terra sombria da pátria!

A unidade de abastecimento
Que aguardo com tanta ansiedade
Também retornará!
E notícias de Chol Ho chegarão até mim!”

Até a fogueira que lutara contra a escuridão a noite inteira
Foi diminuindo como se entrasse em trégua.

E somente aquele homem sentado ao lado dela
Levantou-se suavemente e disse:

“Oh! O dia está amanhecendo!”

O céu do leste
Erguendo pouco a pouco a alvorada
Levantava-se com facilidade, levantava-se!

3

A tão esperada unidade de abastecimento
Só voltou pela manhã-

Tudo o que trouxeram foram dois bois.

Só de pensar em mais sopa de ervas
Parecia que rasgavam os próprios corações,
Por isso começaram a preparar o abate antes mesmo que o comandante soubesse-

Afiando as facas com força
E atiçando o fogo da fogueira.

Quando o comandante chegou
Os olhos famintos dos guerrilheiros reunidos
Fizeram até os dois bois estremecerem
Como se já tivessem perdido os sentidos-

Os bois do madeireiro japonês tinham o couro lustroso e arreios robustos.

“De onde trouxeram estes bois?”

Pergunta o comandante.

“Da entrada da serraria em Sambatgol…”

Responde o líder do pelotão, Sun Son.

O comandante observou os arreios-

Arreios adornados com moedas.
Arreios bordados… trabalho das mãos de uma mulher.
E aquele argolão no focinho- um traço típico do povo coreano.

Não eram bois japoneses.

“Camaradas!
Desde quando nós, guerrilheiros,
Nos tornamos bandidos?
Desde quando
Passamos a saquear os bens do povo?

Olhem estes arreios-
Este boi pertence a um camponês coreano.
Aquele pertence a um camponês chinês.”

Assim falou o comandante Kim.

Aquilo era uma ordem para devolver os bois.
Aquilo era uma ordem para colher ervas silvestres
E preparar o café da manhã.

Quando os guerrilheiros se espalharam pelas montanhas
Colhendo ervas como quem canta pelas colinas
Os dois bois gordos
Pastando tranquilamente
Desceram a encosta rumo à aldeia,

Sem saber por quais perigos passariam
Nem que desgraças poderiam encontrar…

4

Os guerrilheiros cercavam em roda…
E diante deles, em silêncio, estava o comandante Kim…

Sobre suas cabeças pairava uma atmosfera fria
Como geada de outono descendo.
Até os raios do sol da manhã
Pareciam perceber aquilo
E penetravam cautelosamente pela floresta.

“Quem matou os bois?”

Pergunta o comandante em voz baixa.

“……” — a multidão permanecia silenciosa.

“Quem matou os bois?”

Uma voz baixa, porém cortante.

Mesmo assim ninguém respondeu.
Um pesado silêncio
Zumbia nos ouvidos dos guerrilheiros.

“Comandante!
Fui eu quem os matou…”

Dá um passo à frente e fala
O jovem guerrilheiro Choe Sok Jun.

“Você?”

Os guerrilheiros se espantam.

Sok Jun, corajoso até nas batalhas…
Sok Jun, famoso como batedor…
Sok Jun, tido como camarada exemplar…

“Como pôde?”

Os guerrilheiros se indignam ainda mais.

Seu rosto abatido pela angústia
Curvado para o chão-

“Porque o comandante e todos nós
Já estávamos há quatro dias sem comer…”

Mas alguém na multidão grita-

“Está tentando se justificar!”

E outro-

“Você desobedeceu à ordem!”

O líder do pelotão, Sun Son, ergue o punho-

“Você está ajudando os japoneses!”

Sok Jun levanta bruscamente a cabeça-

“Ajudando os japoneses?”

“Isso mesmo!”

“Eu?”

“Sim, você!”

“Eu estaria…”
“ajudando os japoneses?”

“Sim! Você! Você!”

“Então…”

Clac-
O som do fuzil sendo armado.

“Pois bem, mereço morrer…”

Sok Jun oferece o peito à arma.

“Quietos!” — ecoa a ordem do comandante.

Como se uma chapa de aço rasgasse a floresta,
Os guerrilheiros congelam onde estão.

Somente o pesado silêncio
Pesa sobre todos como uma tampa esmagadora.

5

“A água no caldeirão ferve e desaparece-
Porque não possui fonte.
Mas os rios formam grandes correntes.

Camaradas!
Nós devemos nos tornar um grande rio, devemos nos tornar o mar.
Nossas raízes estão entre as massas,
Nossa força também está entre as massas!

Esquecemos acaso
Que somos guerrilheiros ligados ao povo por laços de sangue?

Se esquecermos isso
Como realizaremos nossa grande causa?

Separar-se do povo-
Isto significa nossa destruição.
É exatamente isso que os japoneses desejam.

Se ignorarmos isso
Como realizaremos nossa grande causa?”

Os guerrilheiros permanecem imóveis,
Enquanto essas palavras lhes atravessam o peito
E a indignação sobe violentamente dentro deles!

“Ainda assim você não compreende sua culpa?”

Pergunta o comandante a Sok Jun.

“Compreendo!” responde Sok Jun.

A erva atingida pela primeira geada
Ainda pareceria mais viva do que ele…

“Compreendo muito bem minha culpa…”

A voz de Sok Jun treme…
Os lábios ressecados estremecem…

Mas agora vinha o momento do castigo-
Como Sok Jun atravessaria aquele momento?

Os guerrilheiros conheciam apenas uma punição-

“Fuzilamento.”

O breve instante antes da tempestade…

Silêncio… silêncio… silêncio…

“Encontrem o dono e paguem pelos bois!”

Após dar essa ordem
O comandante se vira.

No rosto antes pálido de Sok Jun
Voltam alguns traços de cor.
Também nos rostos dos guerrilheiros
A luz da manhã reaparece.

Uma profunda lealdade e convicção
Deita-se sobre os corações dos guerrilheiros
E, como se os apertasse afetuosamente
Faz seus corações estremecerem.

6

Após dez dias
A unidade guerrilheira partiu rumo ao sudeste.

Os aldeões das montanhas também se esforçaram ao máximo
Carregando provisões às costas
Tratando os combatentes feridos
E enviando líderes de pelotão por dezenas de ri
Para despistar as “forças de repressão”-

Mesmo assim, noite após noite
O comandante não conseguia dormir.

Até que um dia
Um homem de meia-idade vestido como operário
Chegou carregando ervas medicinais.
Ele colocou um pequeno mapa nas mãos do comandante
E na manhã seguinte
A unidade partiu rumo ao sudeste.

O caminho para o sudeste-

À frente, montanha após montanha
Vales incontáveis e distantes,
Mas quem ousaria dizer que era difícil?
Quem ousaria ficar para trás?

Avante! Avante!

Quando até os lobos morriam congelados pelo frio
Os guerrilheiros sonhavam com esse caminho-
E então novos brotos cresciam em seus corações.

Mesmo quando a fome se tornava insuportável
Os guerrilheiros sonhavam com esse caminho-
E então enormes montes de grãos cresciam dentro de seus peitos.

Mesmo quando o caminho de volta era coberto pelo mato
E o coração parecia cheio apenas de cinzas
Os guerrilheiros sonhavam com esse caminho-

E então a fogueira da esperança
Indicava a direção adiante.

O caminho para o sudeste-
O caminho sonhado acordados ou dormindo,
O caminho pelo qual diziam que passariam ao menos uma vez
Mesmo que morressem.

Se vivos não conseguissem chegar
Então mortos chegariam rastejando até ele-

O caminho para a pátria, o caminho da luta-

Os guerrilheiros partiram.
Partiram rumo ao sudeste.

Avante! Avante! Oh!
Pois à frente está
O rio Amnok! O rio Amnok!

Capítulo 5

1

Muito tempo depois de cessarem os tiros
Ecoou o último disparo da perseguição-
E Chol Ho parou de caminhar.

Seu coração corria desesperado pela estrada desconhecida
Enquanto sua garganta parecia lançar fagulhas-

Mas toda a sua vida estava concentrada na audição.
Sob a luz da lua, entre as árvores curvadas da floresta
Tudo parecia sombrio-
Ao redor, um silêncio de morte…

Só então ele deitou cuidadosamente no chão
O garoto que carregava nos braços-

“Yong Nam! Yong Nam!”

Clama Chol Ho em voz baixa.

O rosto pálido do menino sob o luar
E um fino gemido, como um pesadelo doloroso…

O sangue que escorria de seu peito
Molhava a frente da roupa…

Rasgando a manga da própria roupa para enfaixar o ferimento-

“Yong Nam, vamos!
Vamos para o vale de Solgae!”

Mas o garoto mantinha os olhos fechados e não respondia.

Como uma mãe erguendo o filho doente nos braços
Chol Ho levanta-se carregando o menino.

2

Esta era uma noite de desgraça-

Nessa noite, levando o relatório final
Chol Ho e Yong Nam tentavam atravessar o rio Amnok
Quando foram perseguidos pela guarda japonesa.

Era uma noite de infortúnio-

Mas somente um homem carregava sozinho
Todo aquele desastre mortal.
Yong Nam, inconsciente, nada sabia
E apenas Chol Ho
Abraçando sozinho toda aquela desgraça
Cambaleava apressadamente
Pela estrada noturna rumo ao nordeste,

Tentando chegar ao vale de Solgae…
Tentando salvar Yong Nam…

Estrada noturna-
Estrada noturna dentro das montanhas…

Atrás deles estavam a prisão e a morte
E adiante perigos desconhecidos
Guardavam cada esquina como gatos à espreita.

Carregando o menino agonizante
Tentando conter o coração prestes a explodir
Passo a passo
Cada passo rasgando-lhe a alma-

A estrada noturna das montanhas, o caminho de Chol Ho!

Ó viajantes conscientes desta terra,
Quantas vezes já percorreram uma estrada assim?

Certamente não podem desconhecer o caminho de Chol Ho.
Ao menos em seus corações, venham até aqui-
Venham ajudar Chol Ho,
E limpem em segredo
O suor que lhe encharca até as unhas!

Esta estrada noturna de sofrimento-
Talvez ninguém venha sequer a conhecer seu nome.

Mas ela haverá de ligar-se
À grande estrada da vida
Que um dia se abrirá nesta terra,
Silenciosamente, sem nome…

3

Ele não sabia quantos ri havia caminhado
Nem quantas horas haviam passado.

Só um pensamento permanecia-
Chegar logo ao vale de Solgae!
Salvar Yong Nam!

Quando alcançaram a entrada do vale das roças
Ao amanhecer
Yong Nam recuperou a consciência.

Suas primeiras palavras-

“O relatório… o relatório…”

Depois pediu água…

Chol Ho correu para buscar água
E o menino, deitado sob um pinheiro
Sobre a grama desconhecida da primavera
Permaneceu estendido.

Abrindo bem os grandes olhos ardentes
Fitou o céu escuro azul-acinzentado
E então se levantou de repente
Erguendo os dois punhos ao alto-

“Lutem até o fim!
Viva a independência da Coreia!”

Gritou com toda a força.

Assim como uma gaivota atingida por tiros
Mesmo despencando contra os rochedos
Ainda bate as asas quebradas
Chamando pela vida e pela luta,

Assim gritou pela última vez o menino
E depois caiu lentamente de lado.

Duas linhas de sangue escorrem de seus lábios
Misturando-se ao orvalho da madrugada sobre a grama…

Uma sombra de nuvem passa diante de seus olhos…

O vento sopra em rajadas-
Sacudindo os pinheiros…

4

Chol Ho cava uma sepultura,
A sepultura de Yong Nam sob os pinheiros…

Cava e suspira,
Suspira e volta a cavar…

Como poderia imaginar
Que o enterraria naquele lugar-
Aquele jovem que tanto amava a vida,
Aquele coração puro como os rios desta terra,
Aquele peito ardendo de amor pela pátria!

Chol Ho cavou a sepultura-
A sepultura do camarada sob os pinheiros.

“Descanse, camarada!
Nós… nós
Nos vingaremos dos inimigos!”

Lágrimas intermináveis
Caem gota a gota sobre a terra amarelada.

Como não saber
Que esta não era a primeira sepultura
Nas inúmeras montanhas e vales de Changbai?

A noite manchada pelo sangue da invasão
Cobriu esta terra por completo,
E quantos milhares morreram
Lutando por um novo amanhecer?

Em qual montanha, em qual vale,
Sob qual árvore ou qual pedra
Foram enterrados sem nome?

Ó lenhadores desta terra,
Cortem as árvores com cuidado-
Como saber se elas guardam o espírito de nossos mártires?

E não chutem as pedras à beira do caminho-
Como saber se sob elas
Descansam os ossos de nossos antepassados revolucionários?

5

A trilha estreita,
A trilha que sobe até a fonte.

A trilha onde a névoa da manhã se enrola em torno dos passos-

Kkotbun sobe para buscar água.

Subindo, chega ao muro de pedras-
O mesmo onde, naquela noite da chegada do policial
Esconderam a mimeógrafa…

Toda manhã e toda tarde
Sempre que passava por ali
Lembrava-se de Chol Ho partindo pela estrada noturna…

“Onde estará agora?
Desde que partiu não houve sequer notícias.
Será que está trabalhando em segurança?”

Por que sua imagem
Se tornava cada dia mais saudosa?
Por que seu coração doía tanto assim?

Os passos vacilam…
Como se carregasse algo pesado dentro do peito.

Ao passar pelo muro de pedras chega à rocha da fonte
Avermelhada pelas flores de azaleia-
E abaixo dela está a nascente…

As flores caídas durante a noite cobriram a água da fonte.

Kkotbun se agacha
E com as duas mãos afasta as pétalas.

Um punhado ela coloca sobre a pedra,
Depois outro punhado…

Seu coração agitado e inquieto-
“Será que poderei encontrá-lo?”

Pensa a jovem enquanto olha para a água da fonte.

Refletidos na água como num espelho
Seus grandes olhos
Parecem revelar toda a tristeza do coração-

“Ah! O que estou pensando?”

A jovem cora.

Ao tentar afastar um terceiro punhado de flores
Ela para, surpresa-

Ao lado da rocha estava ele.

“Chol Ho!” — exclama a jovem,
Misturando espanto e alegria.

As flores que segurava caem espalhadas
Voltando a cobrir a água da fonte…

Mas o rosto exausto e abatido de Chol Ho
Faz o coração de Kkotbun parar.

“O que aconteceu?”

“Yong Nam morreu na noite passada…”

“Yong Nam? Ah… que tristeza!…”

Ao lado do coração da jovem
Uma dor pesada
Se contorce silenciosamente
E volta a se contorcer…

Pouco depois, Chol Ho partiu
E Kkotbun também saiu em viagem.

Disse que iria para a cidade H,
Que ia vender flores como nunca antes
Carregando um feixe de azaleias.

Arrancou até as azaleias da fonte
Que durante anos havia cultivado com tanto carinho,
Sem deixar uma única flor para trás…

Capítulo 6

1

O grande rio do norte desta terra-
Nas águas azuladas dos setecentos ri do rio Amnok
O sol do entardecer se inclina,
E carregando consigo o crepúsculo
Descem as jangadas de madeira, descem as jangadas.

As histórias banhadas em lágrimas de quem
Habitaram as cabanas sobre essas jangadas?
A vida cheia de sofrimento de quem
Foi consumida na fogueira
E desapareceu como uma linha de fumaça?

“Tocando a flauta d’água, chorando enquanto sigo rio abaixo
Já deixei para trás a estrada de mil ri além do rio
Já deixei para trás a estrada de mil ri além das montanhas
Seguindo as nuvens sobre os passos da serra vou sem fim
Ehung, eheyo, vou sem fim…”

Por que aquela canção é tão triste?

Porque derrubam as verdes florestas desta terra,
Como não seria triste essa canção!

Mesmo que em cada casa deste país
As vigas se partam e os pilares apodreçam
Com aqueles troncos lisos e seculares
Os invasores realizam seus banquetes de luxo-
Como não seria triste essa canção!

2

O crepúsculo se aprofunda,
As águas tornam-se frias,
E o vento noturno gelado
Começa a girar pelas margens do rio.

Então, sob uma rocha do outro lado do rio
Ecoa um assobio agudo-
E nas jangadas também as fogueiras começam a brilhar.

As jangadas que desciam o rio retornam, retornam.
A frente toca a margem de lá,
A traseira permanece na margem de cá-

Num instante forma-se uma ponte de jangadas.

Dois homens saem da cabana
E correm voando para esta margem.

Um deles é um jangadeiro,
O outro é Chol Ho.

Logo depois, sob a rocha da margem oposta
Soldados começam a correr.

Correm e atravessam o rio Amnok
Pela ponte de jangadas-

A unidade guerrilheira atravessa o rio Amnok.

Quando se esconderam ao pé da montanha
A ponte de jangadas já havia desaparecido,
E apenas as ondas frias

Chap- chap-

Quebravam-se contra a margem.

Ao longe ainda ecoava-

“Lançaremos, lançaremos
Construiremos barcos para lançar
Construiremos jangadas para lançar!”

3

Os guerrilheiros atravessaram o rio Amnok-

Nesta terra esmagada pelo imperialismo japonês
Não havia lugar para viver,
Nem lugar para repousar depois da morte,
Tudo lhes fora roubado e tirado.

Perguntemo-nos, compatriotas!

Com suspiros capazes de romper o peito
Naquele dia em que atravessaram este rio
Dando os primeiros passos miseráveis como mendigos
Nesta terra estrangeira e hostil-

Quantos anos já se passaram desde então?

Sobre o rio paira a neblina noturna encharcada-
Não seriam esses os suspiros do povo que cruzou este rio?

As águas se erguem, quebram-se e tornam a se quebrar-
Não seriam essas as lágrimas do povo que cruzou este rio?

Ó rio Amnok! Rio Amnok!

Mas esta noite, enfurece-te!
Levanta ondas violentas
E faz tremer montanhas e rios!

Os guerrilheiros desta terra
Atravessaram-te
Para espalhar as chamas da guerra de libertação-

Incendiando seus corações patrióticos para iluminar o caminho
Afiando sua vontade e erguendo alto espadas e lanças
Os mártires desta terra
Pisaram novamente o solo da pátria.

Rio Amnok! Rio Amnok!

Levanta tuas ondas furiosas
E faz estremecer montanhas e rios!

Ergue teu gigantesco peito
E clama pela batalha decisiva!

4

Na cidade H encaixada entre os vales
Onze horas da noite…

Depois de um longo dia coberto pela poeira dos fornos
Os habitantes também já se recolheram para dormir.
As lojas
Onde todos enganavam e disputavam entre si
Fecharam suas portas.

Até o riso estridente das prostitutas
Que permaneciam até tarde nos restaurantes
Desapareceu,
E as janelas também escureceram
Como os olhos fundos de um cego.

Até o sujeito que percorria as ruas
Cantando “Kusatsu yoi toko”
Acabou chutando a porta de uma casa de dois andares
E entrando após gritar:
“Yoboyaro!”

Onze horas da noite…

Nos fundos do depósito florestal
Em algum canto da área miserável
Até cessou o choro desesperado da mulher
Que passara a noite lamentando
O homem morto esmagado por uma jangada,
Enrolado numa esteira e largado num canto do quarto.

Crianças nuas como peixes secos pendurados no verão,
Jovens reduzidos a ossos,
Velhos curvados-

Todos encolhidos e mirrados
Dormindo profundamente…

Onze horas da noite…

5

Onze horas da noite…

As ruas estavam desertas
E apenas as lâmpadas derramavam sua luz amarelada-

Até o policial de guarda no posto
Cochilava com a cabeça tombando
Quando de algum lugar surgiram um homem e uma mulher
Diante do portão do posto policial-

A mulher puxando o homem,
O homem se deixando arrastar pela mulher.

“Entre logo aqui!”

A voz irritada da mulher.

“Hã… o… quê… é…”

A fala enrolada do homem bêbado.

“O que está acontecendo?”

Rosna o policial
Lançando um olhar atravessado aos dois.

“Senhor policial, este sujeito não quer pagar a bebida…”

“Hah… isso é engraçado…
Hahaha… o senhor também acha engraçado, não?”

“Seu desgraçado! Sabe onde está rindo?
Tem coragem de rir diante de mim?”

O policial avança rapidamente
Erguendo o punho.

No mesmo instante
O cano de um revólver encosta em seu peito.

Sem sequer conseguir gritar
Os olhos do policial viram
E ele desmaia no canto do posto.

A mulher
(Era Kkotbun, do vale de Solgae)
Corta os fios de comunicação,
E o homem
(Era Chol Ho, agente político)
Abre a porta e faz um sinal.

No instante em que abre a porta e sinaliza-
Dispara-se um tiro de sinalização logo ao lado
Rasgando o silêncio da cidade adormecida.

Em seguida vêm os tiros, um após outro…

Tiros no correio,
No banco e também no depósito florestal.

Traçando linhas caóticas pelo ar
Ecoam as rajadas de metralhadora:

Ta-ta-ta-ta-!

E o estrondo das bombas:

Boom! Boom!

6

O inimigo nem sequer consegue reagir
Antes de morrer ou fugir-

No telhado da prisão
Levantam-se chamas enormes,
E também nas casas dos funcionários,
Nas casas dos japoneses,
E nas casas dos traidores
As chamas se erguem.

Rasgando em pedaços o céu escuro
E queimando tudo aos pedaços,
As labaredas sobem,
E então explodem os gritos de “viva!”

Primeiro em alguns pontos,
Depois por toda parte-

Nesta rua esmagada e pisoteada
Ecoa o clamor da resistência,
E nesta rua sombria
Ardem violentamente as chamas da luta.

Multidões vestidas de branco avançam-
Velhos de cabeça descoberta,
Mulheres descalças,
Crianças nuas.

Nesta rua onde o desespero havia se instalado
As chamas tremulam
Como um jardim de outro mundo,
E a luz do fogo dança
Erguendo o desejo de renascimento.

No meio da multidão agitada como um mar noturno
Ergue-se com a espada na mão
O herói incomparável General Kim Il Sung!

“Compatriotas!
Estão vendo aquelas chamas?
A Coreia não morreu!
O espírito da Coreia vive!
O coração da Coreia também vive!

Incendeiem!
Incendeiem a cabeça dos inimigos!”

Os gritos de “viva!” fazem tremer casas e ruas
E sobem junto com as chamas
Sacudindo e ecoando
Pelo céu escuro desta terra!

7

Enquanto a luz brilhante das chamas cobre toda a cidade
Pisando sobre as fagulhas que caem
Cantando em alta voz canções revolucionárias
A unidade guerrilheira deixa as ruas.

E o povo da cidade os acompanha na despedida-

Porque trouxeram um raio de vida
A esta rua sufocante

“Vão em paz, heróis!
Vençam sempre!”

Mas quando eles partirem
A rua voltará a ser escura, uma rua de lágrimas.

Por isso o povo os despede chorando-

“Vão em paz, heróis!
Um dia voltaremos a nos encontrar!”

As lágrimas que escorrem pelas faces
Parecem gotas de sangue refletidas no fogo.

Mas os guerrilheiros clamam-

“Fiquem bem, compatriotas!
Lutem, compatriotas!
Voltaremos a nos encontrar,
No ano da libertação, no ano da independência!”

Iluminados pelo brilho intenso das chamas
Os guerrilheiros avançam rasgando a escuridão
Passo firme após passo firme,

Pelo caminho da luta-

Tum-
Tum-
Tum-

Capítulo 7

1

A noite se aprofundava sem fundo
Enquanto os guerrilheiros, atravessando altas montanhas e vales profundos
Chegavam ao rio Amnok.

Mais uma vez os guerrilheiros se preparavam
Para atravessar estas águas cheias de significado e sofrimento.

Mas este caminho
Não era uma estrada de exílio de partir o coração.
Era o caminho da vitória, o caminho da vingança-

Por isso até o rio Amnok murmurava alegremente
Empurrando as jangadas até a margem
E avançando majestosamente através da noite
Rumo ao vasto mar.

Quando os guerrilheiros
Tentavam montar a ponte de jangadas
Soam de repente tiros inesperados,
E no escuro da encosta
Ecoam metralhadoras enlouquecidas-

Era a perseguição das “forças de repressão”!

À frente, o grande rio coberto pela névoa da noite,
Atrás, o inimigo-

“Cercados?” “Cercados!”
O pensamento atravessa como um relâmpago-

Alguém se lança de repente à água,
Outro também salta.

Bang! Bang!

O comandante Kim ergue rapidamente sua pistola-

“Ouçam a ordem!”

Dois traidores, sem emitir um som sequer-

A escuridão e as ondas
Engoliram aqueles dois cadáveres vergonhosos.

2

Deixando Chol Ho no comando da retaguarda
O exército inteiro trava resistência
E o contra-ataque aquece a noite.

Levando consigo apenas um esquadrão
O comandante Kim salta sobre as jangadas!

As balas gritam como lamentos de morte
Cravando-se aqui e ali sobre as águas,
Enquanto, uma a uma,
O comandante Kim liga as jangadas.

Depois de alguns minutos desesperados
A ponte começa a atravessar,
Atravessa rumo à margem salvadora.

Protegido pela retaguarda
Quando o corpo principal cruza o rio sob a névoa
O inimigo levanta a cabeça,
E a escura encosta da montanha
Cospe fogo como um vulcão implacável.

Escondido sob a barragem de tiros que protege a retirada da tropa principal
O último combatente da retaguarda recua-

Era Chol Ho.
Ao lado dele, Choe Sok Jun.

Atirando enquanto sobem à jangada
Nesse exato momento-

Chol Ho cai silenciosamente.

De algum lugar ecoa um zumbido-

(Os pensamentos de Chol Ho)

“O que é esse som?
Por que tudo está ficando tão escuro?”

E Chol Ho perde a consciência…

……

3

Quando, poucos passos adiante na névoa
Ecoa o som desesperado da investida inimiga
Chol Ho recupera a consciência.

Reunindo toda sua vida em um único braço
Ele lança granadas-

Boom! — os gritos dos inimigos…

Lança outra-

Boom! — os gritos dos inimigos…

A explosão rompe a ponte de jangadas
Que se divide violentamente em duas partes.

Só então Chol Ho vê Sok Jun-

Caído sobre a jangada
Ainda segurando o cabo quebrado do fuzil…

Ao lado dele, os cadáveres empilhados dos inimigos.

Reunindo suas últimas forças
Chol Ho ergue Sok Jun nos braços-

Alguns passos à frente…
E desaba novamente.

Quando volta a levantar-se
Ainda carregando o corpo do camarada
Dá mais alguns passos…

Avança sem hesitar.

Então, de repente, Chol Ho para abruptamente-

Uma granada inesperada
Atravessara o coração do combatente…

“Ahh!”

Ele fica imóvel por um instante
E depois cai para a frente…

Chap- crash-

As águas escondem os dois combatentes,
As frias águas do rio Amnok…

4

Até o inimigo desanimado
Interrompe os disparos constrangido,
E quando as jangadas começam a tocar a margem
Uma voz feminina ecoa da beira do rio-

“Chol-Ho! Sok-Jun!”

Era a voz de Kkotbun.

“Chol-Ho! Chol-Ho!”

Claramente a voz do comandante Kim.

Mas… não houve resposta.

Somente as ondas
Como se descarregassem sua fúria
Golpeavam as jangadas:

Crash- crash-

Debatendo-se furiosamente.

“Chol-Ho! Sok-Jun!”

O grito angustiado da jovem.

Mesmo assim… não houve resposta…

Somente o rio Amnok
Golpeava o próprio peito
Na escuridão:

Boom- crash- boom-

5

Os guerrilheiros de pé sobre a rocha do cume da montanha-
Ali estava o comandante Kim,
Ali estava Sun Son,
Ali estava Kkotbun,
E todos os combatentes também estavam ali…

Quem não estava naquela fileira?
O lugar de quem permanecia vazio?

Chol Ho não estava!
Sok Jun não estava!

Enquanto ao longe ecoavam os tiros das “forças de repressão”
Os guerrilheiros contemplavam
A pátria mergulhada na escuridão
Com os olhos ardendo de fúria.

“Camaradas!”

A voz trêmula do comandante Kim-

“Depois de passarmos anos lutando em terra estrangeira
E destruirmos a rede de vigilância onde nem pássaros podiam passar
Esta noite, em solo da pátria
Nós golpeamos duramente o inimigo.

Ao povo compatriota que secava em sofrimento
Mostramos dignamente
A força viva desta nação.

Mas, camaradas!

O inimigo ainda é forte.
Por isso, nesta noite,
Fomos obrigados mais uma vez
A atravessar o rio Amnok.

E nossos camaradas,
Chol Ho e Sok Jun,
Sem sequer podermos encontrar seus corpos
Acabaram enterrados para sempre
Nas águas cheias de dor deste rio Amnok, não foi?”

A voz sufocada do comandante Kim se interrompe,
E alguém enxuga as lágrimas com o punho.

O soluço abafado de Kkotbun…

6

“Mas, camaradas!”

A voz do comandante ressoa como aço.

“Embora nós
Tenhamos atacado apenas uma pequena cidade
As chamas que levantamos ali
Lançaram o fogo da luta
No peito da nação agonizante!

Embora hoje
Ataquemos apenas uma cidade e partamos
Nós certamente voltaremos!

Coreia! Coreia!”

O comandante Kim ergue alto a espada do juramento,
E os combatentes levantam os fuzis como troncos gigantes.

“Coreia! Nós voltaremos!
Enquanto o povo viver
Nossa força será imensa!

A espada da justiça
Descerá sobre o pescoço da invasão!
Varreremos a injustiça!

Faremos reviver o espírito patriótico
E ergueremos mais alto as chamas da luta de libertação!

Guerrilheiros!
Pela batalha sangrenta decisiva-
Fogo!”

A salva de tiros faz tremer montanhas e rios.

“Guerrilheiros!
Pelos espíritos de nossos mártires-
Fogo!”

A salva de tiros faz tremer montanhas e rios.

“Coreia! Coreia!
Por tua libertação e independência!
Por tua felicidade e democracia!
Fogo! Fogo!”

A salva de tiros faz estremecer montanhas e rios!
Faz estremecer os três mil ri da pátria!

Poema de Encerramento

Reunindo em um punhado
As cadeias do Oriente como se fossem um leque,
Agitando seus cabelos brancos no céu infinito,
Desde os tempos mais remotos
Observando uma a uma
As tempestades e sofrimentos desta terra-

Ó monte Paektu, montanha sagrada!

Hoje amanheceu nesta terra,
Hoje nuvens coloridas pairam sobre teu lago celestial,
Hoje acima de tua cabeça
Abriu-se o vasto céu azul.

Tu, Paektu! Montanha da Coreia, responde-
Como voltou a nascer
O sol que havia caído?
Quando o sol caído voltou a erguer-se
Quem recebeste?

Agitando os cabelos brancos dos séculos
O monte Paektu responde-

“Escutem!
Escutem o que vos digo!

Quando as águas do rio Tuman
Ergueram-se sob o bombardeio rompendo as nuvens,
E os guerrilheiros antijaponeses
Subiram os altos cumes
Despejando fogo mortal contra o imperialismo japonês,

Então o sol que havia caído
Voltou a nascer nesta terra!

Quando minha cabeça se envolveu
Em uma deslumbrante luz branca,
E do fundo do meu peito
Redemoinhos de energia azul começaram a girar,
Naquele momento-

Eu recebi
Os guerrilheiros eternos
Que atravessaram mares de fumaça e projéteis,
Que derrotaram invasores no Leste e no Oeste,
E espalharam sua luz por todo o mundo.

Naquele momento-

Recebi o verdadeiro filho
Que o povo desta terra tanto esperava-
Meu comandante guerrilheiro Kim,
Minha consciência e minha vontade,
Minha convicção e minha esperança.

Recebi também Sun Son e Kkotbun.

Naquele momento-

Vales e vales, casas e casas,
Ruas e ruas, praças e praças
Abraçaram-se uns aos outros,
Saltando, dançando, chorando e cantando.

Quando, entre bandeiras da liberdade,
Gritos de “viva!” e aclamações,
Toda esta terra fervia
Como um oceano branco
De emoção transbordante e patriotismo ardente,

Também eu,
Com um sopro maior que qualquer outro na eternidade,
Enchi profundamente os pulmões antes reprimidos
E clamei pela libertação desta terra!
Clamei pela minha eternidade!”

Então tu, Paektu,
Montanha da Coreia, responde!

O que vês hoje?
Quem vês hoje?

Agitando os cabelos brancos dos séculos
O monte Paektu responde-

“Hoje
Vejo o trabalho ardente da criação
Subindo vigorosamente das chaminés.

Vejo os campos livres
Cobertos por colheitas abundantes.

Vejo a nova Coreia democrática
Erguendo-se poderosamente na grande avenida da história
E abrindo as asas do progresso.

Hoje
Vejo o povo construindo os alicerces da independência,
Vejo o comandante Kim
À frente da frente democrática.

Hoje
Abraçando plenamente os ideais luminosos
E sustentando o futuro brilhante da democracia,
Vejo o rochedo do povo crescendo sem cessar-
Vejo Moranbong!

E também, ao pé do monte Samgak,
Mesmo que as forças reacionárias se amontoem em desordem,
Mesmo que os olhos enlouquecidos do terror brilhem em plena luz do dia,
Vejo claramente hoje
Que, diante do vibrante clamor da frente democrática,
Até os pinheiros do monte Nam brilham ainda mais verdes.”

Dizendo isso,
Como se não pudesse conter sua indignação,
O monte Paektu agarra um redemoinho do pico Janggun
E o lança sobre o lago celestial iluminado.

Então o lago celestial revolta-se por inteiro,
Levantando ondas violentas
Como se fosse engolir o céu,
Golpeando rochas e sacudindo penhascos!

Faz vibrar o coração do céu
E estremecer os alicerces da terra!

Erguendo os cabelos brancos dos séculos,
Olhando para o resplandecente monte Ural ao norte,
Observando também a nova China
Além de Kunlun e Himalaia,
E lançando sua sombra cheia de ódio
Sobre o Pacífico e o monte Fuji,

Paektu clama-

“Ó mundo, escuta!

Erguerei minha nação nesta terra!

Com a vontade dos penhascos
Que desgastei durante milhões de anos,
Com a força acumulada através das eras,
Destruirei toda injustiça
E construirei minha nação,
Uma nação democrática!

Tão profunda quanto minhas raízes,
Tão firme quanto minhas rochas,
Tão elevada quanto meus picos,
Tão brilhante quanto meu lago celestial-

Erguerei

Uma nação da liberdade!
Uma nação da independência!
Uma nação do povo!”

Assim clama o monte Paektu!
Assim clama o povo!

Jo Ki Chon, 1947

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