sábado, 16 de maio de 2026

Kwangju: As paredes ainda falam de 18 de maio

No centro de Kwangju existe um edifício que já não pertence apenas à arquitetura da cidade. O Edifício Jonil 245 tornou-se uma espécie de testemunha sobrevivente do Levante Popular de Kwangju. Entre cafés modernos, placas luminosas e avenidas movimentadas, ele permanece como um corpo marcado pela violência da ditadura militar sul-coreana. Quem entra naquele prédio percebe rapidamente que não está visitando apenas um espaço cultural. Está entrando em uma parte preservada da própria história coreana.

No interior do edifício há um caderno aberto para anotações dos visitantes. Pessoas deixam reflexões curtas, homenagens a familiares mortos, frases de solidariedade ou simples pensamentos silenciosos diante da memória do massacre. Em uma das páginas, lia-se: “Um diário é algo que se escreve sozinho, mas, com o passar do tempo, torna-se a memória de todos.” Logo abaixo, um visitante sul-coreano escreveu que, depois dos recentes acontecimentos políticos na República da Coreia, passou a pensar ainda mais em Kwangju. “Foi porque Kwangju existiu que foi possível encerrar a insurreição e destituir Yun Sok Yol”, dizia a mensagem. Era como se maio de 1980 ainda estivesse conversando com o presente.

O nome do edifício não é simbólico por acaso. Durante as obras de restauração realizadas décadas depois do massacre, investigadores descobriram exatamente 245 marcas de tiros espalhadas pelos andares superiores. Não eram danos aleatórios do tempo. Eram perfurações deixadas por disparos militares, principalmente tiros vindos de helicópteros utilizados durante a repressão conduzida pela ditadura de Jon Tu Hwan. O número foi incorporado ao nome oficial do prédio para impedir que aquelas marcas fossem esquecidas ou apagadas.

Hoje, os nono e décimo andares preservam parte dessas cicatrizes atrás de painéis de vidro. O visitante consegue observar rachaduras reais abertas por projéteis de metralhadora enquanto exibições digitais reproduzem as trajetórias dos helicópteros que sobrevoavam a avenida Kumnam disparando contra civis. Não há necessidade de dramatização artificial. As paredes falam sozinhas.

Em 1980, o edifício era um dos prédios mais altos daquela região de Kwangju. Sua localização na avenida Kumnam fazia dele um ponto estratégico durante os protestos. Manifestantes buscavam abrigo ali enquanto jornalistas tentavam romper a censura militar para informar o restante do país sobre o que acontecia nas ruas. O prédio abrigava redações de jornais e emissoras de rádio locais que operavam sob pressão constante do regime.

A ditadura de Jon Tu Hwan entendia perfeitamente o perigo que aquelas informações representavam. Mais do que controlar cidades, era necessário controlar a narrativa. Se a população da República da Coreia percebesse que cidadãos comuns estavam sendo massacrados por exigir democracia, o próprio regime perderia completamente a legitimidade. Por isso, desde o início, os manifestantes foram apresentados oficialmente como “agitadores”, “criminosos” ou elementos manipulados pelo comunismo.

Essa lógica anticomunista já fazia parte da estrutura política sul-coreana havia décadas. Sob a influência da Guerra Fria e da forte presença dos Estados Unidos na península coreana, qualquer mobilização popular podia ser tratada como ameaça à segurança nacional. Trabalhadores organizados, estudantes progressistas e movimentos democráticos frequentemente eram enquadrados como “subversivos”, mesmo quando suas reivindicações eram simplesmente o fim da ditadura e eleições livres.

Foi nesse ambiente que o Levante Popular de Kwangju começou. Em maio de 1980, estudantes da Universidade Chonnam saíram às ruas exigindo o fim da lei marcial decretada pelo regime militar. A resposta veio rapidamente através de tropas paraquedistas enviadas para esmagar os protestos com violência extrema. Espancamentos públicos, torturas e assassinatos passaram a ocorrer em plena luz do dia.

A brutalidade da repressão teve o efeito contrário ao esperado. Em vez de intimidar a população, ela incendiou a cidade inteira. Taxistas passaram a transportar feridos gratuitamente. Comerciantes distribuíam alimentos aos manifestantes. Trabalhadores, estudantes, motoristas e moradores comuns começaram a ocupar as ruas juntos. Em poucos dias, Kwangju havia se transformado em uma insurreição popular de enormes proporções.

Na República da Coreia, o episódio ficou conhecido oficialmente como Movimento de Democratização de 18 de Maio. Já na República Popular Democrática da Coreia, consolidou-se o nome Levante Popular de Kwangju. Apesar das diferenças políticas entre essas interpretações, existe um ponto impossível de negar: milhares de sul-coreanos comuns enfrentaram um regime militar armado até os dentes em nome da democratização.

Durante alguns dias, os habitantes de Kwangju organizaram formas próprias de administração popular. Comitês civis surgiram para coordenar abastecimento, segurança e comunicação. Grupos de autodefesa armados improvisadamente patrulhavam áreas da cidade enquanto assembleias populares aconteciam em prédios públicos ocupados. A cidade experimentava algo raro: uma organização nascida diretamente da mobilização popular.

É justamente essa dimensão popular que os setores conservadores sul-coreanos tentaram destruir ao longo das décadas seguintes. Surgiram então teorias conspiratórias afirmando que agentes da República Popular Democrática da Coreia teriam liderado os protestos. Essas acusações nunca foram comprovadas. Seis investigações nacionais diferentes não encontraram qualquer evidência concreta de infiltração militar norte-coreana em Kwangju.

Mesmo assim, a extrema-direita continua repetindo essas mentiras porque elas cumprem uma função política muito específica. Se os protestos forem apresentados como uma conspiração externa, então a ditadura pode ser reinterpretada como “defensora da nação”. Mas se a verdade for reconhecida plenamente, torna-se impossível negar que o próprio povo sul-coreano se levantou contra um governo fascista sustentado pela violência militar.

Os documentos exibidos no Edifício Jonil 245 desmontam essa falsificação histórica de maneira devastadora. Relatórios militares, registros oficiais e documentos desclassificados demonstram que as forças repressivas receberam autorização para utilizar fogo real contra manifestantes. Helicópteros foram empregados em operações de disparo sobre áreas urbanas. O massacre não foi um acidente nem um “confronto descontrolado”. Foi uma decisão política.

Também é impossível ignorar o papel desempenhado pelos Estados Unidos naquele contexto. Washington acompanhava atentamente os acontecimentos em Kwangju e mantinha relações estreitas com o aparato militar sul-coreano. Durante a Guerra Fria, a prioridade estratégica estadunidense era preservar governos anticomunistas aliados (ou subordinados, lacaios) no Leste Asiático, mesmo que isso significasse apoiar regimes autoritários.

Enquanto civis eram mortos nas ruas de Kwangju, reuniões diplomáticas e militares discutiam estabilidade regional, contenção política e controle da situação. A linguagem burocrática escondia uma realidade brutal: a democracia sul-coreana estava sendo sufocada diante dos olhos da principal potência ocidental do planeta.

Na madrugada de 27 de maio, as tropas lançaram o ataque final contra a cidade. Tanques avançaram pelas ruas enquanto soldados retomavam prédios ocupados pelos manifestantes. Muitos daqueles que permaneceram resistindo sabiam que provavelmente morreriam. Ainda assim, decidiram ficar. Não defendiam apenas edifícios ou barricadas. Defendiam a ideia de que o povo tinha direito de decidir o destino da própria sociedade.

O massacre deixou mortos, desaparecidos, presos e milhares de famílias destruídas. Durante anos, sobreviventes foram perseguidos e silenciados. Mães escondiam fotografias dos filhos assassinados. Testemunhas evitavam falar publicamente por medo de represálias. A ditadura tentou transformar Kwangju em um assunto proibido.

Mas a memória conseguiu sobreviver. Sobreviveu em relatos clandestinos, em músicas proibidas, em funerais vigiados pela polícia e nas lembranças compartilhadas entre gerações. Sobreviveu porque Kwangju deixou de pertencer apenas à cidade. Tornou-se símbolo da luta democrática de toda uma geração sul-coreana.

Hoje, o Edifício Jonil 245 representa exatamente isso: a transformação de um espaço comum em memória coletiva. Seus andares inferiores funcionam como centros culturais e turísticos modernos. Organizações artísticas, projetos digitais e iniciativas sociais ocupam o mesmo edifício que um dia foi marcado por tiros de helicópteros militares. É como se o prédio inteiro simbolizasse a sobrevivência da própria sociedade sul-coreana após a ditadura.

Do terraço, é possível observar a Praça da Democracia 18 de Maio e os antigos edifícios administrativos que se tornaram palco da resistência popular. Lá de cima, Kwangju parece uma cidade comum. Mas basta olhar para as paredes perfuradas do Edifício Jonil 245 para perceber que certas cidades nunca voltam completamente ao normal. Algumas continuam carregando a história inscrita em concreto, vidro e memória humana.

Ao norte de Kwangju, o Cemitério Nacional do 18 de Maio encerra essa memória coletiva de forma ainda mais profunda. Ali repousam estudantes, trabalhadores, motoristas, donas de casa e jovens que morreram durante o Levante Popular. Ao fundo do memorial ergue-se o Monumento Memorial do 18 de Maio, uma estrutura de quarenta metros de altura cujas formas lembram duas mãos unidas em prece. Em determinadas épocas do ano, especialmente próximo ao aniversário do levante, famílias, estudantes e visitantes caminham silenciosamente entre os túmulos carregando flores e fitas amarelas. Não se trata apenas de uma cerimônia de homenagem aos mortos. É uma peregrinação política e histórica em defesa da memória daqueles que enfrentaram a ditadura militar para que futuras gerações sul-coreanas pudessem viver em uma sociedade menos marcada pelo medo.

Lenan Menezes da Cunha

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