segunda-feira, 7 de setembro de 2026

7 de Setembro: entre a independência de 1822 e a soberania que ainda buscamos

No dia 7 de setembro de 1822, o Brasil rompeu formalmente seus vínculos políticos com Portugal e iniciou uma nova etapa de sua história como Estado independente. Mais de dois séculos depois, esta data continua merecendo ser celebrada. A independência foi uma conquista histórica e representou a afirmação do Brasil como uma nação soberana diante do mundo. Entretanto, comemorar a independência não significa deixar de refletir sobre seu significado. Afinal, depois de 204 anos, uma pergunta permanece atual: somos realmente independentes?

A independência brasileira não foi um acontecimento limitado ao famoso grito às margens do Ipiranga. O processo envolveu conflitos políticos e militares em diferentes partes do território e só se consolidou efetivamente depois de combates contra as forças portuguesas. Na Bahia, por exemplo, a luta pela independência prosseguiu até 1823. A construção do Estado brasileiro, portanto, foi resultado de um processo muito mais amplo e complexo do que a imagem tradicional do 7 de setembro costuma sugerir.

Mas a ruptura política com Portugal não significou uma ruptura profunda com as estruturas econômicas e sociais existentes. O Brasil tornou-se formalmente independente enquanto mantinha a escravidão, o poder das grandes propriedades rurais e uma estrutura econômica fortemente voltada para a exportação de produtos primários. Embora a independência política tenha ocorrido, não significou uma transformação revolucionária da sociedade brasileira. Pelo contrário, as antigas relações de dependência não desapareceram simplesmente porque uma nova bandeira passou a tremular sobre o território.

Ao longo dos séculos seguintes, o Brasil deixou de estar subordinado politicamente a Portugal, mas continuou inserido em relações internacionais marcadas pela desigualdade entre as nações. Mudaram os parceiros, os produtos, os mecanismos financeiros e as formas de influência. A dependência assumiu novas formas. A questão fundamental, portanto, não é apenas saber se o Brasil possui um Estado próprio, mas se possui condições materiais para determinar independentemente os rumos de sua economia, de sua política externa, de sua tecnologia e de sua defesa.

Não basta possuir instituições formalmente nacionais para que uma sociedade seja plenamente independente. A soberania política está profundamente relacionada à estrutura econômica. Um país que depende de capitais estrangeiros, de tecnologias importadas, de equipamentos estratégicos produzidos no exterior e de mercados externos para sustentar setores fundamentais de sua economia possui limitações concretas à sua liberdade de decisão. A independência política pode existir juridicamente enquanto a dependência econômica permanece na prática.

O Brasil possui, entretanto, condições extraordinárias para pavimentar um caminho diferente. Somos um país de dimensões continentais, com enormes reservas minerais, petróleo, terras agricultáveis, água, biodiversidade, uma população numerosa, uma agricultura altamente produtiva e uma longa tradição científica e tecnológica. Possuímos universidades, centros de pesquisa, empresas capazes de atuar em setores sofisticados e uma indústria que, em determinados momentos de nossa história, chegou a ocupar posições relevantes internacionalmente. Não nos falta potencial.

O problema é justamente o contraste entre esse potencial e a posição que ocupamos atualmente na divisão internacional do trabalho. Nas últimas décadas, o Brasil sofreu processos de desindustrialização e perda de densidade produtiva em diversos setores. Essa dependência também pode ser observada na própria estrutura do comércio exterior brasileiro. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 53% das exportações brasileiras correspondem a commodities primárias e produtos intensivos em trabalho e recursos naturais, enquanto aproximadamente 64% das importações são constituídas por produtos de alta e média intensidade tecnológica. O contraste revela uma economia fortemente competitiva na produção e exportação de bens primários, mas ainda dependente do exterior em setores de maior conteúdo tecnológico.

A indústria não deve ser vista apenas como uma questão meramente econômica. Ela é também uma questão de independência nacional. Um país que não domina tecnologias fundamentais fica vulnerável a interrupções de fornecimento, sanções, restrições comerciais e decisões tomadas por governos estrangeiros. Sem capacidade própria de produzir máquinas, equipamentos, medicamentos, componentes eletrônicos, sistemas de comunicação e tecnologias estratégicas, a soberania torna-se limitada justamente quando ela é mais necessária.

O mesmo raciocínio vale para a defesa nacional. Não se trata de defender militarismo, expansionismo ou aventuras bélicas. Trata-se de reconhecer uma realidade elementar: um país que não possui capacidade suficiente para defender seu território depende, em última instância, da vontade de outros. A própria política oficial brasileira reconhece que a Base Industrial de Defesa possui importância estratégica para a soberania, a proteção territorial e o desenvolvimento tecnológico e industrial. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece ainda a necessidade de reduzir dependências externas em áreas sensíveis.

É justamente nesse ponto que devemos olhar para o estado de nossas Forças Armadas e de nossa indústria de defesa. O Brasil possui projetos importantes, empresas de excelência e capacidades que não devem ser desprezadas. Portanto, seria incorreto afirmar que o país simplesmente não possui capacidade militar. O problema está na distância entre aquilo que o Brasil poderia construir e aquilo que efetivamente consegue produzir, manter e desenvolver de maneira autônoma. Dependências tecnológicas, limitações orçamentárias e dificuldades de continuidade de projetos estratégicos constituem vulnerabilidades que não podem ser ignoradas.

Essa discussão deixou de ser puramente teórica quando olhamos para o que aconteceu na Venezuela em janeiro de 2026. Os Estados Unidos realizaram uma operação militar em território venezuelano e capturaram o então presidente Nicolás Maduro e sua esposa, levando-os para os Estados Unidos. A operação provocou fortes questionamentos jurídicos e internacionais, justamente porque envolveu o emprego de força militar de uma potência contra outro Estado soberano.

Independentemente da posição que cada brasileiro tenha sobre o governo venezuelano ou sobre Nicolás Maduro, existe uma questão que não pode ser ignorada: uma intervenção desse tipo voltou a demonstrar, de maneira concreta, que a soberania dos países latino-americanos não pode ser considerada automaticamente protegida pela diplomacia ou pelo peso das chamadas "instituições democráticas". O que aconteceu na Venezuela deve ser estudado pelo Brasil não para alimentar pânico, mas para produzir uma reflexão séria sobre nossa própria capacidade de defender a independência nacional.

Não é nem de longe um delírio pensar que os Estados Unidos possam estar planejando uma invasão ao Brasil. Tendo em vista isso, a questão que se apresenta com urgência é, se uma poderosa força estrangeira demonstrou disposição para empregar força militar contra um país latino-americano, quais seriam as condições brasileiras para enfrentar uma eventual agressão militar? E se a pressão não começasse com uma operação militar, mas por meio de sanções, pressões diplomáticas e outros meios de desestabilização? Um país soberano precisa estar preparado para todas essas possibilidades.

É nesse contexto que as eleições de outubro de 2026 adquirem uma importância que ultrapassa a simples disputa entre candidatos. O primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro e, caso necessário, o segundo turno será realizado em 25 de outubro. O Brasil atravessa esse processo eleitoral em um ambiente de crescente tensão nas relações com Washington. Autoridades e organizações brasileiras já manifestaram preocupação com possíveis tentativas de interferência estrangeira no processo eleitoral, enquanto reportagens recentes apontam que a relação entre a política estadunidense e a disputa eleitoral brasileira se tornou particularmente sensível.

É perfeitamente legítimo, portanto, perguntar o que aconteceria se o eleitorado brasileiro escolhesse um projeto político considerado inconveniente pelos Estados Unidos. Seria ingenuidade acreditar que as grandes potências simplesmente observam passivamente os acontecimentos políticos de outros países quando seus interesses econômicos e estratégicos estão envolvidos. A história latino-americana oferece numerosos exemplos de interferência política externa. O desafio para o Brasil é impedir que a escolha soberana de seu povo seja transformada em objeto de pressão de qualquer potência estrangeira.

E aqui a experiência venezuelana deve servir como advertência, não como profecia. O Brasil não é a Venezuela, possui dimensões, população, economia, instituições e capacidades militares muito diferentes. Mas justamente por ser uma potência regional, possuir enormes riquezas naturais e ocupar posição estratégica no Atlântico Sul, o Brasil não pode imaginar que seus interesses geopolíticos sejam irrelevantes para as grandes potências. Quanto maior a importância de um país, maior também deve ser sua preocupação com a defesa de sua soberania.

Nesse sentido, o problema brasileiro é ainda mais profundo do que a existência ou não de uma ameaça militar imediata. A verdadeira vulnerabilidade começa quando uma nação perde progressivamente a capacidade de produzir aquilo de que necessita. Quando desmonta sua indústria, perde tecnologias, enfraquece sua pesquisa científica, depende excessivamente de equipamentos estrangeiros e deixa setores estratégicos subordinados às decisões de outros países, ela começa a abrir mão de sua independência antes mesmo de qualquer soldado estrangeiro atravessar sua fronteira.

É justamente aqui que a experiência da República Popular Democrática da Coreia merece ser conhecida e estudada. A concepção Juche colocou a independência política, a autossuficiência econômica e a capacidade de defesa nacional como questões inseparáveis. Não se pode ignorar a questão fundamental apresentada por sua experiência: um país que deseja preservar sua independência precisa desenvolver suas próprias forças materiais para sustentá-la. A independência não pode depender permanentemente da vontade de outra potência.

O Brasil não precisa copiar mecanicamente a experiência de ninguém, nem possui as mesmas condições históricas, geográficas ou econômicas de outros países. O que podemos fazer é formular nossa própria resposta brasileira ao problema da independência nacional. Isso significa defender a reindustrialização, o desenvolvimento científico e tecnológico, a soberania energética, a produção nacional de bens estratégicos, o fortalecimento da indústria de defesa e uma política externa verdadeiramente independente. Significa também compreender que patriotismo não é apenas cantar o hino ou levantar a bandeira: é construir as condições materiais para que um povo possa decidir seu próprio destino.

Por isso, o 7 de setembro deve continuar sendo uma data de celebração. Mas pode ser também uma data de reflexão. Em 1822, o Brasil conquistou sua independência política e tornou-se formalmente uma nação soberana. Em 2026, porém, ainda precisamos responder a uma questão fundamental: quanto dessa soberania conseguimos transformar em independência econômica, tecnológica, militar e estratégica? A verdadeira independência não se resume à existência de uma bandeira, de um território ou de um governo nacional. Ela exige que o povo brasileiro possua as forças necessárias para defender suas próprias decisões. Se queremos que o Brasil seja realmente independente, essa construção ainda está diante de nós.

Lenan Menezes da Cunha

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