sexta-feira, 13 de março de 2026

O conflito crescente entre o útil e o inútil na "sólida unidade"

Políticos dos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, repetem a todo momento, sempre que surge uma oportunidade, que mantêm uma aliança firme e igualitária baseada em valores comuns.

Recentemente, o secretário de Estado dos EUA, Rubio, ao falar em uma reunião sobre a “sólida unidade” do mundo ocidental, descreveu os Estados Unidos como “descendentes da Europa”, afirmação que foi recebida com certo agrado pelos europeus.

A presidente da Comissão da União Europeia e autoridades diplomáticas da França, Alemanha e Finlândia afirmaram várias vezes que as nações devem unir-se e fortalecer-se para defender seus valores, acrescentando que os Estados Unidos são um verdadeiro parceiro e um poderoso aliado.

Alguns comentaristas ocidentais também avaliaram que “as relações transatlânticas voltaram a fluir com normalidade, o que favorece uma cooperação mais suave entre Europa e Estados Unidos. As divergências de opinião não constituem obstáculos e a aliança transatlântica está se transformando em uma interdependência ainda mais forte”, afirmando que as declarações de Rubio refletem essa tendência.

No entanto, algumas “palavras doces” pronunciadas por Rubio não passam de uma tentativa de apaziguar a desconfiança europeia em relação aos Estados Unidos e não significam que Washington tenha abandonado sua ambição de sacrificar a Europa para satisfazer seus próprios interesses. Na mesma reunião, ele criticou abertamente a Europa por aceitar muitos imigrantes e deixou evidente a intenção dos Estados Unidos de assumir o controle da Groenlândia.

Ao testemunhar essa postura dupla de Rubio, a Europa passou a nutrir ainda mais dúvidas em relação aos Estados Unidos.

Recentemente, o primeiro-ministro da Noruega afirmou que o ambiente diplomático está se deteriorando devido ao comportamento rude dos Estados Unidos para com os países da União Europeia e sugeriu que, em vez de depender de Washington, a Europa deveria desenvolver uma cooperação mais profunda e vinculante com os países vizinhos para exercer maior influência.

Essa avaliação pode ser vista como resultado da reflexão sobre o passado e o presente das relações entre Europa e Estados Unidos.

Após a Segunda Guerra Mundial, os países europeus estabeleceram uma aliança com os Estados Unidos e passaram a atuar em conjunto com eles.

Ao propor o chamado “Plano Marshall”, Washington promoveu a “assistência” à Europa enfraquecida pela guerra e, ao mesmo tempo em que a subordinava economicamente, liderou a criação da OTAN, amarrando firmemente o continente à aliança. A Europa acostumou-se a seguir os Estados Unidos e a viver sob essa dependência.

Nos últimos anos, porém, as relações transatlânticas começaram a deteriorar-se rapidamente devido às ações dos Estados Unidos, que passaram a prejudicar abertamente os interesses europeus em busca apenas de seus próprios ganhos.

Assim como no passado, também hoje o que Washington deseja na aliança transatlântica não é uma Europa forte, mas uma Europa dócil. Os Estados Unidos têm utilizado o continente como instrumento para satisfazer seus interesses gananciosos e suas ambições hegemônicas.

Após o início da crise na Ucrânia, os Estados Unidos pressionaram os países europeus a aumentar a ajuda militar a Kiev e, ao mesmo tempo, passaram a controlar a compra de energia estadunidense pela Europa, obtendo enormes lucros. Como resultado, as economias europeias entraram em dificuldades, enquanto os Estados Unidos se tornaram o maior fornecedor de energia do continente.

Em setembro de 2022, as exportações estadunidenses de gás natural liquefeito por navios alcançaram 6,3 milhões de toneladas, das quais cerca de 70% foram enviadas para a Europa. Cada navio das empresas que transportavam GNL para o continente gerou lucros superiores a 100 milhões de dólares. A gigante energética estadunidense Exxon Mobil registrou no segundo trimestre daquele ano um lucro recorde de 17,9 bilhões de dólares, muito superior aos 4,69 bilhões obtidos no mesmo período do ano anterior.

Em 2024, a participação do gás natural liquefeito dos Estados Unidos no mercado europeu atingiu 55% do total das exportações estadunidenses de GNL. Um especialista neerlandês do setor de petróleo e gás afirmou que os elevados custos das importações provenientes dos Estados Unidos acabaram sendo suportados, em última instância, pelos consumidores e empresas europeias.

As empresas de armamentos estadunidenses também lucraram enormemente ao vender grandes quantidades de armas para a Europa enquanto forneciam assistência militar à Ucrânia.

Essa é a verdadeira face da chamada “sólida unidade” que os Estados Unidos e a Europa vêm proclamando há tanto tempo.

Num contexto em que a lei da selva e o abuso de poder estão destruindo a ordem internacional e o mundo ocidental se encontra em declínio, o agravamento das contradições e dos conflitos nas relações entre Europa e Estados Unidos é algo inevitável.

Ri Hak Nam

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