terça-feira, 7 de julho de 2026

Sobre a atual situação política na Coreia e a organização do Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte

Relatório apresentado à Reunião Consultiva dos Representantes dos Partidos Políticos e Organizações Sociais, dos Departamentos de Administração e dos Comitês Populares da Coreia do Norte

8 de fevereiro de 1946

Estimados delegados:

Hoje, reunimo-nos aqui para encontrar uma solução para os importantes problemas relativos ao desenvolvimento da política, da economia e da cultura na Coreia do Norte.

Já se passaram cinco meses desde que nosso povo foi libertado da dominação colonialista do imperialismo japonês. Cinco meses é um período curto, mas, na Coreia do Norte, ocorreram grandes mudanças. A Coreia do Norte ingressou com toda firmeza no caminho de um desenvolvimento genuinamente democrático.

Até cinco meses atrás, a Coreia era uma colônia do imperialismo japonês. Essa dominação colonialista dos imperialistas japoneses, que durou cerca de meio século, deixou à nossa nação uma indústria e um sistema de transportes deformados, uma economia rural atrasada e a ignorância e a miséria de vários milhões de pessoas. O imperialismo japonês impediu intencionalmente o desenvolvimento da economia coreana. As consequências da dominação dos agressores japoneses podem ser claramente vistas em todos os aspectos da situação de cada província da Coreia do Norte.

Há muitos anos, os imperialistas japoneses começaram a construir a indústria na Coreia do Norte, elaborando o plano de agressão ao continente. As fábricas, minas e usinas hidrelétricas construídas pelos agressores japoneses não tinham como objetivo desenvolver a economia de nosso país nem melhorar a vida do povo coreano, mas sim produzir materiais de guerra de interesse do imperialismo japonês. Ano após ano, o imperialismo japonês retirou da Coreia enormes quantidades de matérias-primas industriais e de grãos. Dessa maneira, a Coreia forneceu matérias-primas para a indústria de guerra do Japão e alimentou suas tropas saqueadoras.

Como consequência da política de agressão do imperialismo japonês, a indústria nacional não conseguiu se desenvolver, embora a Coreia dispusesse de condições favoráveis para promover uma indústria moderna, e a economia rural também permaneceu em um estado de atraso inacreditável.

A guerra, que durou vários anos, lançou o povo coreano, especialmente os camponeses, na mais profunda miséria. A maioria dos camponeses perdeu suas terras em consequência da política de saque rural do imperialismo japonês. Foi por isso que 80% do campesinato da Coreia era constituído por arrendatários, semiarrendatários e peões agrícolas. Mantendo intacto o sistema feudal de arrendamento, os agressores imperialistas japoneses frearam ao máximo o desenvolvimento das forças produtivas agrícolas e fizeram com que vários milhões de camponeses sofressem com a pobreza e a fome.

Os japoneses monopolizaram a indústria e o comércio. De todo o capital industrial, o dos coreanos representava apenas 5%, e 85% do capital comercial pertencia aos japoneses.

Todo o poder estava completamente nas mãos dos bandoleiros japoneses.

Os coreanos sofreram uma terrível opressão e humilhação por causa de sua nacionalidade. Aos coreanos eram aplicadas uma legislação especial e uma justiça especial, além de receberem salários inferiores aos dos japoneses. 

Mais da metade de nossas crianças não podia frequentar a escola. Aos jovens coreanos estava quase vedado o acesso à universidade e às escolas técnicas especializadas. Nosso idioma nacional sofreu afrontas e violações. Os agressores imperialistas japoneses procuraram extirpar nossa própria cultura e consciência nacionais e transformar nossa nação em "súditos do Império Japonês".

Apesar dessa opressão dos bandidos japoneses, o povo coreano tinha a convicção de que expulsaria os agressores japoneses e alcançaria, assim, a independência nacional. O povo coreano travou, sem trégua, uma valente luta contra o imperialismo japonês. O Levante Popular de 1º de Março de 1919, as Manifestações pela Independência de 10 de junho de 1926, a greve geral dos operários de Wonsan em 1929, as insurreições camponesas que se sucederam de 1930 a 1932 em várias regiões e a Luta Armada Antijaponesa, travada com intensidade desde o início da década de 1930 no interior e no exterior do país, demonstram claramente que nosso povo conduziu uma luta indomável contra o imperialismo japonês.

Após a derrota do imperialismo japonês e a libertação da Coreia, a situação de nosso país mudou radicalmente. O povo coreano, que conquistou a liberdade e a libertação, viu diante de si um futuro luminoso e empreendeu com vigor a construção de um Estado democrático e independente.

Hoje, no Norte da Coreia, os partidos políticos e as organizações sociais foram organizados e atuam livremente. O Partido Comunista, o Partido Democrático e a União pela Independência da Coreia iniciaram suas atividades, e foram formadas diversas organizações democráticas de massas, como as associações operárias, a União das Mulheres, a União da Juventude Democrática, as associações camponesas, a Associação de Cultura Coreia-URSS, entre outras. As associações operárias e camponesas e as demais organizações sociais reúnem mais de dois milhões de pessoas.

Na Coreia do Norte já são publicados mais de 30 jornais, são editados em nosso idioma livros didáticos para escolas de todos os níveis e outras obras, e as transmissões de rádio também são realizadas em coreano. Do mesmo modo, nas escolas o ensino é ministrado em coreano e, por toda parte, em todos os órgãos e nas ruas, ouve-se nosso idioma coreano. Os grupos artísticos, antes oprimidos e esmagados, renasceram e desenvolvem intensamente suas atividades.

Tudo isso demonstra o elevado entusiasmo político das massas e o ardoroso patriotismo do povo coreano, e comprova que a cultura nacional está renascendo.

Todos os partidos políticos e organizações sociais da Coreia do Norte estabeleceram como objetivo comum formar uma frente unida nacional democrática e, sobre essa base, construir um Estado livre, democrático e independente.

Com a libertação do país, o povo norte-coreano passou a organizar os comitês populares, órgãos locais do poder soberano e democrático. Os comitês populares assumiram, antes de tudo, a tarefa de manter a ordem social e estabilizar a vida do povo.

Em seguida, para dirigir todos os setores da economia nacional e estabelecer as relações econômicas entre todas as províncias da Coreia do Norte, organizamos diversos departamentos, como os de indústria, transportes, comunicações, agricultura e silvicultura, comércio, finanças, educação, saúde pública, justiça e segurança.

Durante o período a que nos referimos, todos os departamentos e os comitês populares locais alcançaram não poucos êxitos em seu trabalho para normalizar a vida econômica.

Entretanto, não podemos dizer que os trabalhos realizados até o presente sejam suficientes. Atualmente, todos os departamentos e os comitês populares locais enfrentam muitas dificuldades e deficiências em seu trabalho.

O mais grave, sobretudo, é que ainda não foi organizado na Coreia do Norte um órgão do Poder central.

Até agora, a Coreia do Norte ainda não dispõe de um órgão único do Poder central norte-coreano que estabeleça as diretrizes de trabalho para todos os departamentos e os oriente. Isso constitui um grande obstáculo para desenvolver de forma unificada e planejada a vida política, econômica e cultural da Coreia do Norte.

Cada departamento atua apenas em seu respectivo ramo da vida econômica e cultural. Entretanto, o trabalho de todos os departamentos está intimamente relacionado. A prática demonstra que surgem cada vez mais problemas que os departamentos isoladamente não podem resolver por si mesmos.

Por exemplo, a restauração da indústria é tarefa do Departamento de Indústria, mas essa tarefa, por sua vez, está relacionada com o trabalho de todos os demais departamentos. O Departamento de Transportes deverá assegurar os serviços de transporte para cooperar com o desenvolvimento de todos os outros ramos da economia nacional. Os assuntos do Departamento de Finanças mantêm estreita relação com o trabalho de todos os setores da economia nacional, como a indústria, a agricultura, o comércio, os transportes, a educação, a saúde pública etc. O Departamento de Educação deverá formar os quadros necessários em todos os campos da economia nacional.

Tudo isso confirma a necessidade urgente de criar um órgão central que, colocando-se à frente dos departamentos, coordene e dirija suas atividades. O estabelecimento do órgão do Poder central na Coreia do Norte é uma tarefa plenamente amadurecida.

Consideramos que o Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte deve desempenhar essa função até que seja estabelecido um governo unificado em nosso país.

A constituição do órgão do Poder central é uma medida que atende aos interesses das massas populares e corresponde plenamente à tarefa de estabelecer a ordem democrática na Coreia. A proposta de formar o órgão do Poder central, isto é, o Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte, foi apresentada pelos dirigentes dos partidos políticos e das organizações sociais de caráter democrático. Com o objetivo de criar o órgão do Poder central, os dirigentes dos partidos políticos e das organizações sociais de caráter democrático da Coreia do Norte organizaram um comitê preparatório.

Foi por isso que convocamos hoje a reunião dos representantes dos comitês populares das seis províncias e dos partidos políticos e organizações sociais de caráter democrático da Coreia do Norte, para eleger os membros do Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte e discutir as importantes tarefas imediatas.

Quais são as tarefas que atualmente se colocam diante do Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte?

Primeiro: deve fortalecer os órgãos locais do Poder e eliminar completamente de seus organismos os elementos pró-japoneses e antidemocráticos. Esta é a tarefa imediata mais importante do Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte.

Para construir uma nova Coreia democrática, livre e independente, é necessário, antes de tudo, liquidar completamente as forças reacionárias, travando uma luta ativa contra os elementos pró-japoneses e antidemocráticos, que são os inimigos do povo. Se permitirmos que os traidores e renegados permaneçam impunemente nos órgãos do Poder, será impossível construir uma nova Coreia democrática. Por isso, todos os comitês populares das províncias, cidades e condados, bem como todos os partidos políticos e organizações sociais de caráter democrático, devem denunciar sem exceção e de maneira completa os traidores da nação e expulsá-los de nossas fileiras.

Segundo: mediante a reforma agrária, deve confiscar as terras dos imperialistas japoneses, dos traidores da nação e dos latifundiários coreanos, distribuindo-as gratuitamente aos camponeses que as cultivam, bem como nacionalizar as florestas.

Em nosso país, a economia rural é um ramo fundamental da economia nacional. Sob o domínio do imperialismo japonês, a maior parte das terras encontrava-se concentrada nas mãos dos japoneses e dos latifundiários coreanos, enquanto a esmagadora maioria dos camponeses dispunha de pouca ou nenhuma terra. Atualmente, o sistema feudal de arrendamento constitui a base econômica das forças reacionárias. Os latifundiários procuram manter intacto o sistema feudal de arrendamento e se opõem a qualquer reforma democrática.

Sem levar a efeito a reforma agrária, é impossível restaurar e desenvolver a economia rural, bem como construir um Estado democrático, soberano e independente. A realização da reforma agrária significa concretizar o desejo secular de nossos camponeses.

Terceiro: deve restaurar e desenvolver as empresas de produção.

Somente quando as empresas de produção forem restauradas e desenvolvidas poderemos pôr fim ao desemprego, elevar o nível de vida do povo e, ao mesmo tempo, desenvolver a economia nacional.

Quarto: deve restaurar os transportes ferroviário e aquaviário.

Os transportes ferroviário e aquaviário constituem as artérias do Estado. Sem um ou outro, é inconcebível o desenvolvimento normal da economia nacional. Todas as províncias da Coreia do Norte estão economicamente ligadas entre si, e devemos fortalecer ainda mais esses vínculos. Além das relações econômicas, também são necessários laços políticos e culturais entre as províncias. Entretanto, atualmente nossos transportes encontram-se em estado de desorganização. Devemos restaurar, sem falta e o mais rapidamente possível, os transportes destruídos. Isso permitirá acelerar em grande medida a restauração e o desenvolvimento de nossa indústria e de nosso comércio.

Quinto: deve reorganizar os sistemas financeiro, bancário e de circulação mercantil.

Sem a organização dos sistemas financeiro e bancário, sem o desenvolvimento do comércio e sem um ativo intercâmbio de mercadorias entre a cidade e o campo e entre as províncias, será impossível restaurar e desenvolver a economia nacional.

Devemos assegurar que todas as fontes de receita sejam plenamente aproveitadas, que os investimentos de recursos sejam realizados da forma mais adequada, que seja garantida uma quantidade apropriada de circulação monetária e que se trave uma luta contra os especuladores.

Sexto: deve assegurar a livre atividade dos empresários e comerciantes e fomentar as empresas de pequeno e médio porte. Agindo assim, será possível solucionar o problema dos artigos de consumo necessários à vida do povo.

Sétimo: deve apoiar o movimento operário e fazer com que os comitês de fábrica sejam amplamente organizados em todas as fábricas e empresas.

Se queremos transformar a Coreia em um Estado democrático, soberano e independente, devemos incorporar ativamente as amplas massas populares, sobretudo os operários, à vida política.

As associações operárias e os comitês de fábrica são organizações de massas que representam os interesses dos operários e, ao mesmo tempo, integram a classe operária à atividade social. Fortalecendo as associações operárias e organizando amplamente os comitês de fábrica nas empresas e no setor de transportes, elevaremos extraordinariamente o entusiasmo político dos operários e aceleraremos ainda mais nossa construção econômica.

Oitavo: deve reformar o sistema de ensino de acordo com o desenvolvimento democrático do país.

Como consequência do sistema de ensino de escravidão colonial do imperialismo japonês, muitos coreanos vegetavam na ignorância e na obscuridade, e nossos jovens e crianças encontravam-se sob a influência das nocivas ideias reacionárias do imperialismo japonês.

Devemos reformar completamente o sistema de ensino e implantar um novo sistema de ensino popular e democrático para, desse modo, abrir o caminho dos estudos aos filhos e filhas dos trabalhadores e erradicar da mente dos jovens e das crianças os vestígios das ideias do imperialismo japonês.

Nono: deve educar as massas populares na ideologia democrática e desenvolver amplamente entre elas o trabalho de esclarecimento cultural. Somente assim será possível elevar a consciência política e o nível cultural do povo e desenvolver nossa cultura nacional.

O trabalho que realizamos até agora nesse campo não passa de um primeiro passo, e ainda temos muito a fazer. Esta também é uma importante tarefa que o Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte deve cumprir pontualmente.

Décimo: deve divulgar amplamente entre as massas populares o verdadeiro significado da resolução sobre a Coreia adotada na Conferência de Moscou dos Ministros das Relações Exteriores dos Três Países.

Os elementos reacionários tentam deturpar a resolução dessa Conferência de Moscou, em particular a questão da tutela. Eles procuram impedir que a Coreia se torne um Estado genuinamente democrático e independente, levando nosso povo a compreender erroneamente essa resolução, destruindo sua unidade e desorganizando a frente unida democrática.

Por isso, o trabalho de divulgar profundamente entre as massas populares o verdadeiro significado da resolução sobre a Coreia da Conferência de Moscou tornou-se uma importante tarefa imediata dos comitês populares em todos os níveis.

Essas são, em linhas gerais, as tarefas imediatas que se apresentam ao Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte.

Sem um órgão do Poder central, isto é, sem um organismo que dirija o trabalho de nossos comitês populares locais e de todos os departamentos de administração, de maneira alguma será possível resolver tarefas tão enormes e complexas. Por conseguinte, estou certo de que os representantes de todos os departamentos de administração, dos comitês populares de todos os níveis, dos partidos políticos e das organizações sociais de caráter democrático participantes desta reunião compreenderão claramente a necessidade de organizar o Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte.

Permitam-me propor que, nesta reunião, seja discutida a questão da organização do Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte e que seja adotada uma resolução apropriada e concreta a esse respeito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário