terça-feira, 2 de junho de 2026

A declaração da "adaga no coração da Ásia" é uma manifestação concentrada da busca da hegemonia dos EUA e de sua mentalidade de Guerra Fria

Recentemente, o comandante das forças estadunidenses estacionadas na República da Coreia causou controvérsia internacional ao descrever a República da Coreia como “uma adaga no coração da Ásia” durante uma entrevista coletiva.

Brunson, comandante das forças dos EUA na República da Coreia, afirmou que “quando os chineses olham da costa leste da China, a primeira coisa que veem é a República da Coreia, uma adaga cravada no coração da Ásia. O Japão desempenha uma espécie de papel de escudo, impedindo as ambições da China de avançar para o Mar do Sul da China e de estender sua presença para o sudeste, até as Filipinas”.

Em relação a isso, a embaixada da China na República da Coreia classificou a declaração como repleta de hostilidade e agressividade contra a China, afirmando que Brunson ultrapassou os limites e questionando se suas palavras haviam sido aprovadas por Washington.

A própria República da Coreia também não conseguiu ocultar seu desconforto, afirmando estar em comunicação com os Estados Unidos sobre a declaração de Brunson. Meios de comunicação expressaram preocupação de que suas afirmações pudessem ser interpretadas como uma tentativa de ampliar o papel da aliança EUA–RC e das tropas estadunidenses estacionadas no país na “contenção da China”.

Embora Brunson tenha tentado justificar-se alegando que suas palavras foram retiradas do contexto e que apenas pretendia explicar o ambiente operacional, sua declaração acabou servindo para evidenciar mais uma vez o papel da República da Coreia como base avançada para a implementação da estratégia do Indo-Pacífico dos Estados Unidos.

Na realidade, a declaração de Brunson não representa uma opinião improvisada de caráter individual, mas reflete fielmente a visão estratégica dos sucessivos governos estadunidenses, que procuram utilizar a República da Coreia como importante instrumento geopolítico na execução de sua estratégia regional voltada para a contenção da China.

Já na década de 1940, os Estados Unidos comparavam a Península Coreana a uma “adaga” capaz de cortar o “pedaço de carne” chamado Ásia. Ao ocupar a República da Coreia e transformá-la em plataforma militar para a invasão do continente asiático, os Estados Unidos passaram a afiá-la continuamente como uma “adaga” destinada a concretizar sua hegemonia regional.

Particularmente após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos apresentaram a estratégia de reequilíbrio para a Ásia-Pacífico, voltada para a contenção da China, e posteriormente a estratégia do Indo-Pacífico, que a ampliou e concretizou, concentrando seus esforços na obtenção de superioridade militar na região.

Para isso, intensificaram seu controle militar sobre a República da Coreia por meio da instalação do sistema THAAD e da realização de exercícios militares conjuntos, ao mesmo tempo que aceleraram o fortalecimento do poder de combate das forças estadunidenses estacionadas no país e o aprimoramento da capacidade de operações integradas com os países aliados.

Desde 2004, os Estados Unidos vinham defendendo a reorganização das tropas estadunidenses na República da Coreia em uma “força de mobilidade estratégica” e “força expedicionária regional”. Após alcançarem, em janeiro de 2006, um acordo com a República da Coreia sobre a chamada “flexibilidade estratégica” das tropas estadunidenses, o Departamento de Defesa dos EUA declarou explicitamente, pela primeira vez, em seu relatório de 2010, que essas forças poderiam ser deslocadas para outras regiões de acordo com esse princípio.

Mais recentemente, sob o lema mais explícito da “modernização da aliança” EUA–RC, a declaração conjunta da 57ª Reunião Consultiva de Segurança EUA–RC, realizada em novembro do ano passado, mencionou o “fortalecimento da dissuasão convencional contra todas as ameaças regionais” e a “manutenção da paz e da segurança no Estreito de Taiwan”. Em dezembro do mesmo ano, o relatório da Estratégia de Segurança Nacional destacou que aliados regionais, incluindo a República da Coreia, deveriam aumentar seus gastos militares para fortalecer as capacidades necessárias à contenção dos adversários e à proteção da chamada “primeira cadeia de ilhas”.

Seguindo essa orientação, os Estados Unidos criaram na República da Coreia um “batalhão expedicionário de reconhecimento” equipado com drones multifuncionais MQ-9 Reaper e reforçaram o destacamento de caças F-16 para a formação de uma “ala aérea superpoderosa”, intensificando assim seus esforços de expansão militar.

Recentemente, aprovaram também a venda à República da Coreia de 24 helicópteros navais MH-60R e de componentes para helicópteros de ataque AH-64E Apache. Além disso, realizaram treinamentos da Força-Tarefa Multidomínio de Mobilidade Rápida do Exército dos EUA, criada com o objetivo de conter os países vizinhos dentro da chamada “primeira cadeia de ilhas”, promovendo ajustes na postura militar estadunidense na região.

A mídia internacional e especialistas avaliam de forma unânime que essas iniciativas dos Estados Unidos visam ajustar o papel, a missão e a postura militar das forças estadunidenses e sul-coreanas de modo a concentrá-las na contenção dos principais países considerados adversários na região da Ásia-Pacífico.

Diante disso, torna-se evidente que a cooperação entre Estados Unidos e República da Coreia em matéria de submarinos nucleares, bem como a integração de forças nucleares e convencionais, que desperta preocupações na comunidade internacional, está igualmente ligada à intenção de garantir a “flexibilidade estratégica” das tropas estadunidenses e utilizar a República da Coreia de forma mais eficaz na contenção da China.

Tudo isso demonstra claramente que, na nova estratégia de defesa nacional dos Estados Unidos, cujo objetivo fundamental é cercar e conter seus principais concorrentes estratégicos na Ásia-Pacífico, a aliança EUA–RC ocupa uma posição central.

A aliança EUA–RC, que se torna cada vez mais orientada para o confronto, constitui um fator fundamental para a elevação das tensões militares e a criação de instabilidade permanente na região da Ásia-Pacífico, despertando a justa preocupação dos países da região e da comunidade internacional que aspiram à paz e à estabilidade.

Não é por acaso que cresce entre os países da região a crítica ao fortalecimento da aliança EUA–RC e que, especialmente dentro da própria República da Coreia, se intensificam as vozes de preocupação de que o país esteja diante de uma encruzilhada estratégica na rivalidade entre Estados Unidos e China, podendo acabar em uma situação semelhante à da Ucrânia.

A recente declaração do comandante das forças estadunidenses estacionadas na República da Coreia expõe claramente a verdadeira face dos Estados Unidos, responsáveis pela destruição da paz e considerados o pior império belicista do mundo, que transformaram a Península Coreana e as regiões vizinhas em campo principal de confrontação entre blocos e de uma nova Guerra Fria.

A tentativa dos Estados Unidos de reforçar a capacidade de contenção coletiva contra as forças anti-imperialistas e independentes na região da Ásia-Pacífico inevitavelmente provocará preocupações de segurança entre as grandes potências vizinhas e impulsionará o fortalecimento da cooperação entre elas para neutralizar tais iniciativas.

Kim Myong Chol, comentarista de assuntos internacionais

Agência Central de Notícias da Coreia 

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